Não sou cachorro não
  Não me lembro o ano em que comprei ‘‘A Cavalaria Vermelha’’, apenas lembro-me que o comprei após ler uma biografia, que também não lembro de quem, que citava Babel como um dos grandes e injustiçados escritores russos. Injustiçado pelo regime de Stalin que o condenou (condenação política) a um campo de concentração na Sibéria onde morreu em março de 1941. Injustiçado como escritor, pois banido fisicamente para a Sibéria, foi também banido seus escritos, principalmente ‘‘A Cavalaria Vermelha’’.
  Muitos anos depois de escrito e anos depois de eu ter comprado o livro na Livraria Werk (sebo) que não existe mais, lia-o na Chapada dos Veadeiros ao lado de uma piscina natural de água quente. Não sei a origem da água. Pergunto ao funcionário do local, um adolescente, que não sabe me informar. Diz ‘‘que falam’’ que vem de um antigo vulcão. Não fui atrás da prova científica da afirmação.
  Não só a piscina é natural, como é também a pequena floresta ao redor onde macacos passeiam, gritam e urram. Sim, verdadeiros urros fazem os adultos, parecendo que estão em briga. Pássaros cantam e borboletas, ambos coloridos, voam. Ao lado tem um pequeno córrego de água fria e transparente onde peixes (pequenos) nadam.
  É neste cenário de tranqüilidade que, quase solitariamente, lia Isaac Babel. Tinha começado a ler o conto ‘‘O rabino: Tudo é mortal. Apenas a mãe é destinada à vida eterna’’, quando chega à piscina uma família. Pai, mãe (destinada à vida eterna), filhos, avós e o inseparável, assim imaginei, cãozinho. Aliás, pelo que pude notar era o ente querido da família.
  Não tenho nada contra os cães, mas eles, ao contrário do que afirmou o ex-ministro – de Collor de Mello – Rogério Magri, não são humanos. Não consigo aceitar que alguns cães sejam tratados com beijos na boca e dormindo na cama junto com pessoas. Tem gente que passa a mão na cabeça de um vira-lata na rua, mas não dirige a palavra para uma criança de rua. Mas esta é outra história.
  O que quero dizer é que neste ambiente agradável lia – revezando com alguns banhos quentes – depois de muitos anos Isaac Babel, quando a família logo passa a se preocupar com as formigas (que ali é natural) que poderiam picar seu cãozinho. Nesta situação onde foi parar o cão? Ora, dentro da piscina comigo.
  Será que as pessoas, como alguns fumantes e alguns donos de cães, não conseguem entender que os ambientes coletivos devem ser respeitados e que nem todos gostam de fumar ou tomar banho com cães?
  Quanto a Babel, naquele início de tarde ‘‘envolvendo-o com a névoa rósea de sua melancolia’’, fui ler em outro lugar, onde pássaros e borboletas, sem o grunhido de cães, passeavam.
Dr. Rosinha é médico pediatra, deputado federal (PT-PR) e secretário da Comissão do Mercosul


O fim do mundo
  As fendas irrompem em coisas horríveis, espetacularizam aquilo que esforçamos por esquecer, mas que está sempre aí, separado de nós pela cortina de ribalta acendendo o pano de boca desvendando o tapume da obra desconstruída, a explosão, a fumaça, o fogo, o processo, o tremor, a fera, a guerra, o desencadeamento de forças obscuras que arrasam num segundo o que tínhamos penosamente construído e ornamentado.
  Ó Escondido, voindo, já tô chegando aí, rasgai as nuvens com vosso relâmpago, troveje a tempestade, troem raios, inundem os vales, acendam velas no monte Horeb, construam arcas de Noé, tendas em Tabor, a vida não é vida, efêmera, consome, nada vale... Toquem as cítaras e os cravos pianíssimos, assoprem as trombetas, abrem as portas os mosteiros às clausuras... Clérigos tonsurem-se às coroinhas, pecadores penitenciem-se com cilício e coronhadas.
  Isaías já anuncia de púlpito ao público... Gemei, Jeremias... A terra sobe, o céu desce, o Criador Deslumbrante, o Deus Pantocrator, Dono do Universo, já ocupa as humildes poltronas vazias das capelas às funéreas moscas, enche com cantos de aleluia a plena solidão das cúpulas das basílicas, repovoa os sacrílegos sacrários e armários, aparece tão sublime o fenômeno desvelado, a epifania envolvente do mistério envolto em gloriosa teofania, arrebatando em cavalos de fogo o corpo e a capa de Elias.
  Já me dizem os oráculos:
  Ó Terra! Agarre-se, sujeito sem jeito, objeto abjeto, obstáculo à plenitude que tudo absorve em pleroma... Teus braços gigantes, infinitos tentáculos, num ósculo em deleite me abrace... Retorne-me à estrada primícia da poeira do piso ao teto, enfeite meus olhos cegos de encantos, proteja-me com seu manto de todos os horrores dos inimigos da noite, dos que espreitam para roubar, ferir ou matar à luz do dia... Livrai-me do mal, aborrecei-me com todos
os mistérios, inebriai-me com o perfume tangível da
unidade...
  Que sejamos, ainda que seja inconfidente, apenas um no fundo do poço, no abismo abissal semente, acolhei-me à espera do amadurecer fruto de vosso seio, corpo grávido dAquele que é, veio e virá em onipresença dirigida, figurada, ativa e passivamente significante, significada, pela fidelidade à vontade de cada acontecimento, que por acaso não acontece.
José Aparecido Fiori é autor de ‘‘Dom Quixote..., quem te matou, Cavalinho?’’

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