EXPRESSO
Uma de avião...
Ainda dizem
que homens não caem
no nosso
colo. Pois no
meu, um
quase caiu.
Literalmente
Estava voltando do Rio de Janeiro para Curitiba, com uma amiga. Aquele pavor básico de andar de avião, e ainda o de ter passado recentemente por temporais, um quase acidente, atrasos de 20 horas conhecendo o chão de vários aeroportos, helicópteros que não têm contato com Congonhas e nos fazem arremeter a 100 metros da pista. Ando nervosa quando tiro o pé do chão. Ultimamente, até elevador me dá aflição. Acompanhada pela minha amiga, e voltando de férias, estava quase tranqüila. Já estávamos em Congonhas, um atraso de duas horas, mas íamos sair, tudo bem.
Ao entrarmos no avião, minha amiga me perguntou se queria ir à janela claro que não, aquela janela redondinha não me deixa esquecer que estou num avião. Alguém já viu uma janelinha daquelas em qualquer outro lugar? Não, só em avião! Pois é, janela, nem pensar.
Acomodamos as bagagens, sentamos, ela à janela, eu no meio. E nem reparei em quem tinha sentado ao meu lado esquerdo. Jogávamos conversa fora, devemos ter falado da Devassa, do Manoel & Juaquim, da Colombo no Forte de Copacabana, do show do Chico (ai...), da Tereza Cristina, do Carioca da Gema, dos passeios por Ipanema, do Bar Luís, do Jardim Botânico, da polícia armada nas ruas, das exposições, dos encontros com a Adélia (outra amiga, jornalista, que cobria os desfiles de moda), da Biblioteca Nacional, da praia, do sol, do mar gelado. Foram uns dias movimentados e muito bons.
O avião decolou.
Antes mesmo do serviço de bordo, notei que o ocupante da poltrona J encostou-se no meu braço. Não foi uma encostadinha. Ele se apoiou. Olhei para o lado para ver se valia a pena reclamar ou suportar a encostada, mas o queixo do moço já batia no esterno. Era inútil qualquer reação, contra ou a favor. Ainda não babava, mas quase. Esse está cansado, pensei...
Procurando a rota (ou sei lá por que diabos o avião faz aquilo) o avião virou a asa direita para baixo. E lá vem o J para cima da K (eu)! Sorte que ele estava de cinto, não caiu em cima de mim. O avião voltou, ele se acomodou.
Lá ia ele, lá vinha ele. Acho que o meu magnetismo é tanto que o Belo Adormecido balançava feito um pêndulo tentava escapar de mim, mas voltava. Pensei que na hora do lanche ele acordasse nada! E nem quando recolheram os restos.
O vôo estava tranqüilo, mas ele continuava balançando perigosamente em direção a mim. Esse sujeito está de sacanagem, pensei! Minha amiga, ao ver um mergulho particularmente perigoso em direção aos meus seios, desatou a rir. Ria tanto que chorou, pegou o lencinho para enxugar as lágrimas, nem conseguia falar. E eu, que não gosto de janelinha, quase cheguei lá passando por cima dela. Antes em cima de uma amiga acordada do que debaixo de um desconhecido dormindo, certo?
Usei a técnica do cotovelo gentil. Nada. A do cotovelo não gentil. Nenhuma reação. Empurrei com a mão. Ele foi. Mas voltou. Finalmente, desisti. Só mais alguns minutos e estaríamos no Afonso Penna. Até pousarmos, incrível, o avião só fez curvas para a direita. Ele vinha e não voltava mais. Fazia nham, nham, nham no meu ombro.
Se não fosse o cinto, outra vez, ele teria deitado no meio das minhas pernas... E minha amiga rindo, tanto que me contagiou, nem sei como ele não acordou com as nossas risadas. Graças pelo cinto de segurança, que deve ser para isso, para garantir a segurança do passageiro ao lado de adormecidos-quase-cadáveres.
Pousamos com toda a gentileza que os pilotos têm ao atirar um avião na pista. O homem acordou. Olhei para ele e ele me devolveu o olhar vazio de um desconhecido. Ingrato, depois de tanta intimidade...
Na saída, não perguntei, mas tive vontade:
E aí, foi bom pra você?
Maria Alexandra Cunha, doutora em Administração e professora universitária
A cidade passa por mim
Curitiba não
é minha porque, enquanto
envelheço,
ela se
transforma
O dia se renova todo dia / Eu envelheço cada dia e cada mês / O mundo passa por mim todos os dias / Enquanto eu passo pelo mundo uma vez.
Este é um trecho do samba O mundo é assim, composto por Alvaiade (Osvaldo dos Santos), da velha guarda da Portela. O samba vem à minha memória por duas razões: a chegada do ano novo e o artigo A cidade não é minha, que me obriga a voltar ao tema.
Curitiba não é minha porque, enquanto envelheço, ela se transforma. Ela não é o que encontrei quando aqui cheguei. Não é o que era o ano passado, sequer o que foi ontem.
Tiro essa conclusão pelo próprio bairro (Vila Isabel) no qual há pouco tempo moro. Do meu escritório-biblioteca, no final de 2004, escrevi: o pinheiro continua parado de frente à minha janela / [...] Por ela os anos entram / [...] envelhecendo espero o ano novo.
Dois anos depois, o pinheiro, apesar da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, foi podado por operários que constróem um prédio. Os anos continuam entrando pela minha janela, e o pinheiro, apesar de continuar parado no mesmo lugar, está encoberto pelo novo (velho) edifício.
Curitiba é cheia de edifícios que, antes de ficarem prontos, já são velhos. São edifícios quadrados, com janelas pequenas, mal ou mau construídos e postados, que se parecem com verdadeiros caixões. Além de surgirem com o aspecto envelhecido, envelhecem a região.
A dúvida entre mal e mau é perfeitamente cabível no caso de algumas construções de nossa cidade. Não é o Aurélio que está errado, mas quem autoriza tais construções.
Diz o dicionário que mal é aquilo que é nocivo, prejudicial; aquilo que prejudica ou fere; estado mórbido; moléstia, enfermidade, doença; dano, estrago, prejuízo; inconveniente. Pois não é que alguns edifícios, apesar de novos, são tudo isso.
Já mau é definido como malfeito; imperfeito, irregular; de má qualidade; inferior; nocivo, prejudicial, ruim; rude, áspero, grosseiro. Pois é a mesma coisa: alguns edifícios, apesar de novos, estão velhos e são tudo isso.
Desejo a todos um bom 2007 e que, apesar do envelhecimento e transformações da cidade, fiquem de bem com a vida. E que ouçam os bons sambas do Alvaiade. Observo: Curitiba também dá e tem samba.
Dr. Rosinha, médico pediatra e deputado federal (PT-PR)





