Semanas atrás vi a notícia de que a cidade italiana de Nápoles estava ‘‘submersa’’ em lixo, e que por trás do caos havia uma organização mafiosa. Coisa que parece não ser diferente aqui no Brasil, pois volta e meia há denúncias de irregularidades e de corrupção nas licitações para a contratação das empresas para efetuar a limpeza e coleta do lixo urbano.
  Não há como ser diferente quando o setor de limpeza pública está na mão de meia dúzia de empresas. Na minha opinião, a simples existência de monopólios e oligopólios, em qualquer setor, já é sintoma de prática mafiosa.
  Das viagens que faço pelo Paraná e por outros estados do País, observo que, ao menos comparativamente, o Paraná dá um destino um pouco mais adequado ao lixo. Digo ‘‘um pouco’’ porque nenhum município dá um tratamento correto, como separar o lixo orgânico dos resíduos recicláveis.
  Em geral, nos discursos dos governantes – inclusive o da nossa Curitiba –, o meio ambiente está sendo respeitado e todo o lixo, recolhido e tratado. Mas, na prática, é só caminhar um pouco, não precisa ir além do bairro em que você mora, para logo ver que a separação do lixo não existe. Raras são as lixeiras, principalmente na frente dos prédios, em que o lixo está separado ou devidamente embalado.
  Vendo a situação de Nápoles, comecei a pensar na quantidade de lixo que é gerada todos os dias em qualquer residência, prédio ou escritório por esse mundo afora. Pensei nisso e voltei no tempo de minha infância.
  Nunca é demais reafirmar que fui gerado e criado no sítio. E, no sítio, quanto de lixo gerávamos e qual era o seu destino? Não me recordo de ter visto algum monte de lixo em qualquer canto da propriedade. Recordo-me que havia a separação do lixo. Tudo que era orgânico era usado para adubo ou alimentação de animais.
  Tudo que era reciclável ganhava outra função. Como criança, já era, sem saber, agente da reciclagem, pois muitos dos nossos brinquedos eram, na verdade, alguma lata, caixa ou pedaço de madeira que, imediatamente, com alguma criatividade, transformavam-se em caminhão, cavalo, guarda-roupa ou boneca para brincarmos.
  Os alimentos (grãos, frutas, legumes e vegetais) eram colhidos e limpos. Aquilo que não era aproveitado voltava para a roça em forma de adubo. O pouco que sobrava dos alimentos cozidos era destinado à alimentação das galinhas, cachorros, porcos e outros animais.
  Era adubo também o excremento dos animais. Todo e qualquer excremento era tratado através da fermentação e por outras técnicas que os agricultores tinham para adubar a lavoura (café, feijão, milho) e a horta.
  As embalagens plásticas eram poucas, assim como as latinhas, que transformávamos em canecas, raladores, latas de carregar água. Saquinho de plástico não me recordo de ter visto algum no sítio. Nós usávamos embornal de algodão para ir à aula e às compras. Quando velho, virava pano de limpar o chão.
  Hoje, o que não falta é lixo, inclusive boa parte está nas lojas para vender. O pior é que há quem compre. Quase tudo é de plástico e não é essencial para a vida. E muito do que se vende é descartado após brevíssimo uso.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente do Parlamento do Mercosul.

mockup