EXPRESSO - Sabor de infância
No texto ''Moro entre saberes e sabores'', publicado aqui nesta FOLHA, escrevi apenas sobre os sábios e os saberes. O espaço foi insuficiente para falar dos sabores. Volto para cumprir o prometido.
O bairro Vila Izabel tem muitos sabores, e boa parte deles vem de povos antigos (Tabajaras, Tamoios, Parintins, Bororós e Guaianazes), que no Brasil habitavam e habitam - os que ainda sobrevivem. Todos viviam da caça e da coleta de frutos.
Não conheço a cultura dos Guaianazes, mas creio que gostavam muito de frutas, pois na rua em que moram, ou melhor, que leva o seu nome, há várias árvores frutíferas. Sei que foram plantadas pelos atuais moradores, mas será que não foram espiritualmente influenciados pelos Guaianazes?
Só para se ter uma idéia, entre as ruas dos professores Sebastião Paraná e Vital Brasil há um pé de romã, três de figo e até um mamoeiro, que com certeza ficará vivo até o inverno. Ainda nesta mesma rua, mais adiante, encontram-se uma amoreira e outro ''romanceiro''.
Prefiro escrever ''romanceiro'', mesmo que errado, ao invés de ''romãzeira'', pois o arbusto e fruto dão-me a impressão de romances (você vai concordar comigo).
No ''Cântico dos Cânticos'', o amado afirma: ''Desci ao jardim das nogueiras/ para ver o broto dos vales, /para ver se a videira florescia, /se o botão das romãzeiras se abriam''. Ao que a amada, imagino que sem temor e cheia de amor, responde: ''Vamos ver se a vinha floresce, / se os botões estão florindo, / se as romãzeiras vão florindo: / aí lhe darei o meu amor...'' (Cant. 6,11 e 7,12) É ou não é um romance?
Há outras amoreiras, em outras ruas da Vila, porém não vi nenhuma delas dando de comer a casulos que um dia gerariam borboletas. Na Vila, temos poucas borboletas e, à noite, algumas mariposas. Dizem que nem uma, nem outra nasceu por aqui.
Continuo pela Vila e encontro uma pequena e solitária bananeira, na praça que fica no encontro das ruas Professor Dario Vellozo e Pedro Collere. Este último, confesso minha ignorância, não sei quem foi. Ainda pequena e com a suscetibilidade que tem toda bananeira ao frio, dificilmente suportará o inverno bravo que vem por aí.
Não sei o que faz um Coronel (Ottoni Maciel) entre tantos saberes. Talvez mereça viver nesse meio. Mas, por obra de alguém, o coronel cruza com os Guaianazes e ali se apresenta com alguns sabores: uma pitangueira, coqueiros que dão coquinhos, abacateiro, uma jabuticabeira e até uma paineira para que travesseiros sejam feitos para o repouso noturno desses heróis.
Na Cândido Xavier com Água Verde e Petit Carneiro, para combater o nervosismo, temos um pé de maracujá, acompanhado de uma ameixeira e outro abacateiro.
Não satisfeito com a Vila, fui além dela. Saí caminhando pela Avenida Iguaçu. Cheguei à Alexandre Gutierrez, onde encontrei mais um sabor da minha infância, um pé de guabiroba. Árvore silvestre, que poucas crianças de hoje conhecem e que é difícil de se encontrar no Paraná, um Estado com poucas áreas de floresta. Foi essa árvore que me deu a idéia desta e de outras crônicas.
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente do Parlamento do Mercosul.





