EXPRESSO - Quem tem medo de Gertrude Stein?
Em uma das edições recentes da revista Veja, o escritor gaúcho Moacir Scliar resenhou o livro ''Duas vidas'', da crítica inglesa Janet Malcolm. As duas vidas em questão são as vidas de Gertrude Stein e Alice B Toklas. Sim, eu sei o que você pensou. E você está certo (ou certa): elas eram homossexuais.
Gertrude, nascida na Pensilvânia, veio da Califórnia para Paris no final do século 19, enquanto Alice chegou um pouco mais tarde, antes da primeira guerra, vinda de São Francisco. Ao se conhecerem, Gertrude definiu Alice como uma pessoa vil, dotada de uma inteligêcia mediana, um ser desprezível, enfim. Depois se apaixonaram e viveram juntas por mais de 40 anos, até a morte de Gertrude Stein, em 1942.
O que importa isso? Absolutamente nada diante da obra grandiosa que a escritora americana perpetrou, livros em jorro por toda uma vida. Mas Gertrude teve um destino estranho na história literária do século 20: virou a amiga de Picasso e Hemmingway. Seus livros da ''fase difícil'' não são lidos porque são considerados (e de fato o são) difíceis até pela crítica; seus livros da ''fase fácil'' não são lidos porque são considerados fáceis. No Brasil a coisa piora porque aqui são apenas dois livros editados.
Gertrude Stein tornou-se, então, paixão de uns poucos obstinados pelo mundo. O problema é que estes obstinados estão sempre nos dizendo ''o que é importante'' e o que ''não é importante'' na obra.
Restou o quê? O mito, claro. Como foi a primeira celebridade literária do século (depois que seu livro Autobiografia de Alice B Toklas foi lançado, quando ela tinha 58), como sua celebridade foi alcançada apenas pelas coisas que dizia e escrevia, nas conferências que fez pela América no ''tour'' de 34 a 36, como falava muito e tinha um humor derrisório, virou uma lenda e, como toda lenda, tornou-se logo um alvo a ser destruído.
E vieram as leituras feministas, reveladoras, mostrando ''a verdade'' por trás do mito. Tentando mostrar que a relação de Gertrude e Alice não era aquilo que se pensava, tentando desconstruir a estátua romana que ela representava nas impressionantes fotos da sua passagem por essa terra, ou no famoso retrato de Picasso. É como se Gertrude representasse um perigo para as instituições literárias consagradas pela crítica do século 20, perigo a ser extirpado através de um paradoxo esterilizante: pretendem desconstruir um mito que mal se conhece além da frase famosa ''uma rosa é uma rosa é uma rosa''.
Como o faz a nossa Janet Malcolm, em um livro que, mesmo se passível de ser contestado sob vários aspectos, é feito com honestidade, paixão e grande talento literário.
E nesse ponto voltamos ao nosso escritor Scliar. Em sua obscura, amargurada e ressentida matéria, ele detona miss Stein dizendo que ela é escritora de uma única frase. Ok, eu sou um apaixonado por Gertrude Stein. Ok, não posso ouvir falar mal dela que já me sinto no dever quixotesco de sair defendendo-a. Mas mesmo sabendo que pouquíssima gente vai ler esse texto, muito menos o escritor gaúcho, tenho a dizer que, tudo bem, se ela é escritora dessa única frase, essa única frase certamente vale mais do que toda imensa coleção de títulos e bobagens que você, Moacir, seu invejoso, impingiu ao mundo.
Antonio Cescatto, de Curitiba





