Não posso dizer se no meu tempo o ensino era melhor ou pior que hoje. Sei que no meu tempo o estudante tinha relativamente menos informação. Hoje, há tanta informação disponível que aqueles que não sabem lidar com elas, e as absorvem acriticamente, perdem-se no caminho.
No meu tempo (sou o dono do tempo), tenho a impressão, os alunos tinham mais vontade de estudar, de "ser alguém". Hoje, parece que querem ter coisas, mesmo que não sejam ninguém. Valorizam o "ter" ao "ser".
No meu tempo fazíamos a escola primária e, logo em seguida, um exame de admissão para entrar no ginásio. Fiquei muito feliz quando, mesmo morando no sítio, com pouca informação, passei no exame e fui admitido no ginásio. Naquele momento, para mim, muito mais importante que passar em qualquer vestibular, até porque não imaginava fazer um curso superior algum dia, era cursar o ginasial.
Desde aquele tempo, ouço de candidatos que, uma vez eleitos, a educação será prioridade de seus mandatos. Imagino se não fosse, pois a impressão que se dá é que até recentemente a educação piorava dia a dia no Brasil. Digo recentemente porque hoje temos alguns governantes que realmente têm feito da educação uma prioridade. Mas ela foi tão destruída (veja o recente resultado do Enem) que levará muitos anos para que tenhamos uma boa educação no país.
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi criado com o objetivo de avaliar o desempenho do estudante ao fim da escolaridade básica. E cada prova, mesmo que mostre melhoria do desempenho, mostra também que, apesar do excesso de informação, os alunos continuam desinformados. Têm a informação, mas não leem.
Recebi um e-mail com o título "Pérolas do ENEM", e ao ler fiquei deveras preocupado. Preocupado com o futuro do nosso País. Lá no sítio, na escola pública, no meu primário, jamais imaginei que um dia exerceria o mandato de deputado. Pois bem, alguns desses que escreveram essas "pérolas" poderão, um dia, com essa "curtura", exercer mandatos.
A redação da prova do Enem teve como tema o aquecimento global. De algumas redações, segundo afirmou o missivista, foram extraídas algumas pérolas. Dá para usar a palavra "missivista" para quem envia e-mail? Será que os alunos que fizeram o Enem sabem o que é "missiva" e "missivista"?
Nas pérolas há de tudo. Há o que tem uma "curtura" contemporânea, está sempre acessando o que há de melhor na internet e ouve os melhores programas de rádio, por isso afirma que "a floresta tá ali paradinha no seu lugar e vem o homem e créu nela". Faltou definir qual a velocidade do "créu".
Há aquele que ouve e passa a usar, mesmo que no seu deficiente português, palavras cujos significados desconhece, como, por exemplo, "a floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo".
"A amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo desmatamento devastador, intenso e imperdoável." Esse é o imperdoável "enchedor" de linguiça. Esses serão os políticos do futuro?

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente do Parlamento do Mercosul.

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