EXPRESSO - Nina e o chef roedor
Todo mundo falou. Todo mundo recomendou. A lista de adjetivos era quase um catálogo telefônico: ''simplesmente imperdível''; ''deslumbrante''; ''obra-prima''; ''supra-sumo ''; '' um show ''. Bárbara Gancia, no jornal paulista, anunciava que estava indo pela terceira vez. Os adultos falavam do filme mais excitados do que as crianças
Foram tantos, enfim, os apelos, tantas as referências e tão virulentos os questionamentos sobre o porquê de não termos visto, que cedemos: depois de meses longe das salas escuras, avessos a quaisquer estréias e acontecimentos cinematográficos, retornamos à moderna caverna platônica para assistir à saga do rato que virou chef. E o motivo era mais do que justo: como Nina comemorava 3 anos e ainda não estreara no cinema, acertávamos dois coelhos - ou melhor, dois ratinhos - com uma só tacada.
Nosso horror a sessões lotadas (e pais enlouquecidos) nos fez optar pelo desértico horário de 17 horas de segunda-feira. Logo que entramos, vimos que acertamos na mosca (ou, talvez, nas moscas), pois, além de nós, acompanhavam as aventuras do Mickey Mouse das panelas e molhos apenas um casal de crianças com a mãe (chegaram a perder duas sessões em outros horários, de tão lotadas) e um inesperado casal de idosos com a filha, uma senhora.
Com o pacote de pipoca média na mão (cinco reais, mais três da coca - um assalto), sentamos. Nina grudada no saco, comendo grão a grão e afastando o conteúdo discretamente quando minha mão se aproximava. Depois de 20 minutos de comerciais que pareceram intermináveis, a ''fita'' começou. Para a pequena, foi um choque: a correria era tanta, o barulho tão frenético e ensurdecedor que não restava a ela mais do que ficar estatelada. Em vez de ver o filme, eu via Nina vendo o filme. E era como se olhasse um ratinho sendo estimulado em uma experiência de laboratório: a cada sequência enlouquecedoramente perfeita, a cada choque milimetricamente projetado para surpreender, ela sacudia inteira, como se eletrocutada.
Pensava em como educamos nossas crianças desde muito cedo através de uma fórmula: a fórmula da velocidade. Se tem velocidade, é divertido; se não tem, é chatice. Nina não demorou a responder aos estímulos. Logo estava pulando na cadeira, dando falsas gargalhadas e se debulhando de rir enquanto o ratinho acertava as ervilhas na panela.
Quando o filme terminou, no entanto, ao ser convocada a dar suas primeiras impressões sobre a vertiginosa experiência fílmica, foi taxativa e substantiva:
- Eu gostei do ratinho. Mas prefiro a Cinderela.
Antônio Cescatto, de Curitiba





