EXPRESSO - Ministro, decida por mim
Se estou numa fila qualquer, e não tenho nada para ler, fico no desespero: estou perdendo tempo. A melhor maneira para não se perder tempo é ler enquanto se espera. Não importa o que se espera.
Observe que, nas salas de espera de cabeleireiros, dentistas e consultórios médicos privados, há revistas para ler. Nunca encontrei nada para ler em delegacias e serviços públicos em geral. Em compensação, em alguns deles, há uma irritante TV ligada no pior programa que existe. E você, ali, obrigado a assistir. Mas tem coisa pior para ver na TV do que o Big Brother Brasil?
Dias atrás perguntei a um dentista amigo por que no consultório dele só tinha a revista Caras e correlatas. Respondeu-me que, quando coloca revistas de informação, ou com melhor conteúdo, as mesmas precisam ser repostas semanalmente, pois os clientes as levam. Já aquelas, ninguém leva.
Mas leitura é fundamental e não consigo ficar sem ler dia algum. Todos os dias leio, e não importa onde esteja. Um dos locais inclusive que uso para ler é o banheiro.
Que eu saiba, muitos têm o hábito de ler no banheiro. Tanto é que uma indústria do interior de São Paulo está lançando um papel higiênico com textos e fotos para ler e ver no banheiro.
Ao tomar conhecimento disso, me surgiram de imediato algumas dúvidas. A primeira: o rolo todo será composto de um único texto? Se for, caso o texto seja bom, o sujeito pode esquecer da vida e ler o rolo todo. Em seguida, ou joga tudo fora (lucro para a empresa) ou enrola tudo de novo.
Segundo, pode ocorrer de o sujeito sair do banheiro e levar o rolo debaixo do braço. Se, antes, entrava no banheiro com o livro, revista ou o jornal debaixo do braço, agora sairá com o rolo de papel higiênico. Significa que, em casa, cada um vai ter seu próprio rolo e vai ser um entra-e-sai do banheiro com um rolo de papel higiênico. Não vai emprestar o papel para ninguém - precisa terminar de ler o texto.
Terceiro, se forem vários textos, pode ocorrer de, quando voltar ao banheiro, o texto que queria ler, já foi usado.
E, por último, uma pergunta: o rolo de papel higiênico vai trazer índice? Terá entre os picotes um texto novo: poesias, piadas e contos. Até concordo com algumas coisas, mas piadas!? Não é estranho ficar rindo sozinho no banheiro?
Ia me esquecendo de algo importante, as fotos. Se encontrar a foto do teu ídolo, você vai usar mesmo assim e desprezar num lixo de banheiro?
Por essas dúvidas, vou consultar o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Afinal, ele emite opinião sobre tudo.
Quero saber do ministro se é constitucional lançar este tipo de produto no mercado. Será que não atenta contra o Estado Direito? Por favor, ministro, decida por mim. O que fazer?
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente do Parlamento do Mercosul.





