EXPRESSO - Mais alegre que criança
Agosto de 2008. Estou no avião, logo após o referendo revogatório dos mandatos do presidente Evo Morales e dos prefeitos dos Departamentos, voltando de La Paz, com escala em Santa Cruz de la Sierra. Já estava dentro da aeronave, em Santa Cruz, quando embarca uma mãe com seu filho, um menino de mais ou menos doze anos.
Ele vinha abraçado com um animal de pano, grande no tamanho e com um rabo nada pequeno. Conforme passava pelo corredor do avião, o rabo do animal tocava na cabeça dos passageiros que já estavam sentados. Alguns se irritavam. Ele, só sorriso, uma alegria de criança.
Até hoje não identifiquei que animal era. Parecia ser uma vaca ou um boi (não vi o meio das pernas), pois tinha um pequeno chifre e um grande rabo. Mas a boca e os cascos eram vermelhos, o que me deixou em dúvida. Vaca não tem boca e nem cascos vermelhos, a menos que esteja de esmalte e batom.
Enquanto caminhava despenteando alguns dos passageiros, a sua alegria dava um sorriso de orelha a orelha. A alegria estampada na cara chegava a contagiar, creio que por isso é que nenhum passageiro arriscou qualquer reprimenda.
Fazia muito tempo que não via um garoto da idade dele com tamanha alegria. Nesta idade, os meninos ficam o tempo todo com o celular na mão, enviando mensagens ou jogando, ou dentro do computador. Dentro mesmo, pois chamá-los nestes momentos é como falar ao vento ou com alguém surdo. Ele chegou a lembrar da minha infância. Aos doze anos ainda éramos crianças inocentes, por isso a alegria era infantil.
Creio que hoje esse tipo infantil e inocente de alegria é permitido a poucas pessoas. É permitido às pessoas simples, como ele, que tinha todo o aspecto de ser de origem indígena e migrante. Durante a viagem, concluí, com grande possibilidades de erro, que ele e sua mãe, bolivianos, vivem em São Paulo e que estão voltando das férias, e que provavelmente ele ganhou o animal de algum parente.
Começou a procurar um local para colocar o animal. Como havia algumas malas no bagageiro, o bicho não cabia. Veio caminhando para o meu lado, onde o bagageiro estava um pouco vazio. Levantei-me preocupado, pois não queria aquele animal sobre a minha cabeça. Não por ser um animal, mas por ser volumoso e que poderia amassar minha "chompa" (tipo de agasalho usado em países da América do Sul).
Desde o dia anterior, eu também estava acometido de uma alegria de criança, e a razão era justamente o fato de eu ter ganho uma "chompa". Sabe o que é ganhar uma "chompa" de um presidente de um país? Eu havia ganho uma do presidente Evo Morales, e a mesma estava, para não amarrotar, estendida, dentro do bagageiro em que o menino queria guardar aquele animal.
Brinquei e me arrependi. Disse ao menino que ele poderia ter comprado duas passagens, uma para ele e outra para o seu animal. Eu me arrependi porque a insensível aeromoça, sem notar que eu estava brincando, imediatamente concordou comigo e passou a criticar o menino por não ter despachado o animal com as suas bagagens.
Que insensível essa moça. Será que em sua infância nunca ganhou um animal que imediatamente se tornou de estimação, como tornou-se também a minha chompa"?
Dr. Rosinha, deputado federal (PT-PR) e presidente do Parlamento do Mercosul.





