EXPRESSO - Ilha do Mel
Por Camões, hoje não falarei das flores, espalharei a última flor ao Lácio, se a tanto me ajudar o engenho e a arte. Falarei da noite escura da morte, da vida assinalada à luz do dia além da Taprobana.
Obediente a Netuno e a Marte, me calo às sereias feias que me zombam, seguirei os mares navegados, a música que as musas lindo cantam. Que fazer, se até Deus gosta de brincar de morte, fazendo poesia à vida, até quando?
Meu singelo canto, aos que não me viram, gosto de aventuras.
Estava eu lá, repórter expedicionário, no murmúrio das ondas obscuro, esparramado pela paisagem, espião de guerra, marujo anônimo, testemunha dos atos, tocando o barco pelo mar profundo.
Compadeço-me e desprezo quem não provou a doçura caymiana de ''morrer'' no mar, o desejo ardente de dormir com a face sobre a relva, de perder o caminho nas florestas, de comer sobre uma pedra perto da correnteza de um rio, de transpor um monte sem trilhas para achar-se num vale sem casas à luz da lareira, longe da fogueira das cidades, das trombetas urbanas, das calçadas esburacadas, dos bueiros malcheirosos, dos luminosos e das lâmpadas, das grandes estradas, das praças cheias, das estátuas e dos fedorentos mictórios públicos.
(...)
Por observações, anotações parcimoniosas, rabiscos umedecidos pedaços de papel, vou vácuo adentro, Baco afora, embarco, desatraco barcos atritos um contra o outro jogados pelas ondas.
Abrem os olhos, abrolhos, avistamos... rochas fortes muralham, uma gaivota um pexe morrendo aos bicos sobrevoa o canhão de flores.
Somos recebidos calidamente por ilhéus ao fremir das jangadas, à dança dos botos, à colheita das sardinhas.
Pobres pescadores!
A invasão compromete a pesca sustentável.
Ainda se pode ouvir paralelo ao rugido das águas espumantes, as primevas caravelas singrando a baía de Paranaguá.
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A ilha cercada por suaves ventos, ocupada por predadores, preservada e habitada pelos seus moradores, afasta os usurpadores, ficará imune à ilusão dos torpes costumes e vestígios, do contágio, dos gestos, dos movimentos, das vozes, dos trajes dos abomináveis intrusos que estupram a virgem de lábios de mel.
Continuará partilhando pão oferecido pela terra suficiente fértil e generosa, alimentando gratuitamente os nativos com direito à autodeterminação contra os descendentes de bárbaros do campo que tomam as cidades por usucapião.
O tempo confina a ilha ao exílio, à solidão mágica da morte.
Por unanimidade burra se julga a morte não salva como deletada do espírito que continua vivendo in totum, em toda parte, materialmente vivo, e como quer.
(...)
O fim da religião ópio do povo e o ateísmo dos poetas acompanham o multiplicar dos desesperados e dos homicidas imunes... concordo.
Se houvesse mais poesia no mundo, inexistiria a violência impune e/ou seria atenuada.
Os invasores não são capazes de sofrer o sofrimento dos irmãos, não sabem perdoar as ofensas. Se a dor de todos inspirasse a piedade, se a culpa de todos aconselhasse à misericórdia, a convivência terreal seria melhor. Se as injustiças fossem reparadas, se cada um de nós se sentisse mais réu antes de juiz, qualquer semente de ódio morreria antes de germinar.
(...)
Aulas de poesia podem libertar segregados e fechar matadouros, se a boca não se alimentasse de animais cruelmente abatidos.
Temos algo em comum com eles... razão, consciência, sentimento, dor, alma..., não estamos autorizados a tratá-los como quisermos, caçando-os, aprisionando-os, matando-os, desrespeitando seus cadáveres.
Penso que devemos lutar contra os campos de extermínios, os matadouros, os frigoríficos, uma luta difícil, porque já nos alimentamos dos cadáveres.
Aristóteles já dizia que a arte da guerra é uma arte natural de aquisição que inclui a caça..., uma arte que devemos praticar contra os animais selvagens e contra os homens que, embora determinados pela natureza a serem governados, não se submetem.
Os ratos, por exemplo, reagem, se organizam em trincheiras subterrâneas, nos esgotos, transmitem doenças, não estão vencendo, mas também não estão perdendo a guerra.
Os insetos, bactérias, vírus estão vencendo, morrem, matando..., sobrevivendo.
José Aparecido Fiori, jornalista (Curitiba)





