EXPRESSO - Hora de prestar contas
Sopra-me o brando vento que o poeta sente, pedindo explicações sobre o que fez, o que não fez e o que esqueceu de sonhar. Às vésperas de prestar contas com a vida e paramentar-me com a mortalha, penso se tivesse feito o que não fiz, tivesse dito não em lugar de sim, seria outro, e outro que não tem mais tempo para projetos, senão o efêmero e o incerto para tentar entender o sentido ou a falta de sentido de vida, com a melancolia da consciência do não-realizado e do não mais realizável.
Todos sabemos, mas intimamente não acreditamos, que vamos morrer: a morte é um acontecimento reservado aos outros. Percebo que não tenho mais tanto tempo para acertar as contas com a vida. O interesse pelo futuro diminui. O devir não me pertence..., e você sente, ao contrário, a necessidade de entender se a vida teve um sentido, e qual foi..., não sei.
Briguei pela independência em relação ao poder, aos partidos, ao mundo da riqueza e da bajulação popular, sem se subordinar ao papel de intelectual do oficialismo, sem subornar ou ser subornado. Combati o bom combate, vou encerrar minha carreira e prestar contas como intelectual que encarnou, ou deveria encarnar, o espírito crítico que não se conforma, ou deveria não se conformar, com nenhuma doutrina completa ou pré-constituída. Semeei dúvidas, fui herético por vocação, anti-autoritário pela própria natureza, impaciente de toda disciplina, terrível alimentador do dissenso, fui...
A insurgência e o pessimismo são um dever cívico...
Deixei de boa vontade o otimismo aos fanáticos, aos que sonham com a catástrofe purificadora e aos fúteis, ou seja, os que pensam que, no fim, tudo se acomoda, se ajeita, se concilia. O crescente desinteresse pelos acontecimentos políticos cotidianos advém do fato de sentir-me cada vez mais absorvido pelas reflexões sobre os problemas da vida e da morte, do bem e do mal. O banimento das elites e, em última análise, da oligarquia, do governo popular, com processos que façam do povo o intérprete de si mesmo, tornou-se uma das promessas não cumpridas da democracia. O poder oligárquico persiste inabalável na democracia, sem que, em nenhum lugar, se tenha encontrado o sistema de permitir ao povo participar diretamente das decisões políticas. O estado institucionaliza métodos de controle do poder em proporções não sonhadas por Montesquieu (1689-1755).
Abaixo os podres poderes!
Chegou a hora de prestar contas, sem preocupação, sobre a precoce velhice, e de desdramatizar a morte.
Lembra Norberto Bobbio o método cultivado por Montaigne (1533-92), para quem filosofar sobre a morte é a maneira de aprender a morrer, de exorcizá-la, tornando-a familiar e comum.
José Aparecido Fiori, escritor





