O quadro negro da lousa era verde rabisco, mato e plantação. A pedra se lavra, o giz risca a serra, a semente sulca a terra, o verme engravida o ventre do chão, a larva aquarela, os raios fúlgidos chovem trovão, o beija-flor beija a borboleta, o girassol gerânio, o fruto gera a lição.
  Piás pés no chão, caminhamos suave a cartilha canção.
  Somos todos iguais, braços dados e não.
  O professor é um poeta, o afeto à terra encerra, semeia letras, sementes, som. Cadencia a plantação ao vento. A planta cresce verso. As folhas criam asas. As flores voam desejos, enlaçam pistilos beijos. Os braços em galhos se abraçam. O amor rima no Lácio repente a lassidão.
  O professor é alguém que reinventa o tempo perdido, ensina a pena, a pua senta, em pus se molha, à prova chora, mas o verbo vinga, o livro poema.
  Era uma vez a, e, i, o, u...
  Ah, como se ouviam canções de ninar e se contavam histórias para boi dormir! E não é que dormiam, professor e aluno, os dois, os bois? Na lição a, a Bela adormecia, a Branca era de neve, os Anões eram sete, o Chapeuzinho vermelho, o Lobo era mau, o Patinho feio, o monstro virava príncipe, o sapo, ah que vida a de sapo, que engolia tantos bichinhos baratos, mosquitos tão miudinhos que mordem, pulgas e baratas, só não comia cobra grande nem cega, e ainda chamavam o coitado de ecochato.
  Na lição b, Babá lava na bacia a barriga do bebê: babá, bebê, bibi, bobo, bubu.
  O Cachorro da lição c, se era rabicó, não sei... ca, co, cu. E a Cebola, se ardia os olhos, ce, ci.
  Fábio faquir afiou a faca, a faca ficou afiada.
  Fada, fezes, fígado, foz, flui.
  Fui.
  Gilda mascou chiclete e engasgou, apontou o lápis com gilete e feriu o dedo de pus. Gildo, o gênio, escreveu na folha de prova, borrou erros, mata-borrou a bolha de zero.
  Zabumba za, ze, zi, zo, zoom.
  A carteira do aluno foi pichada. O diretor prontamente ordenou ao pichador apagar o piche. O pichador despichou.
  Adão escreveu um bilhetinho para Eva que o aviãozinho levou. Envergonhada de ler o papel que Adão mandou, fez um papelão. Esqueceu a tabuada, levou uma reguada na bunda.
  Carpe diem, dia de formatura no grupo escolar. O patrono era padre católico, o paraninfo pastor alemão, o orador Adão.
  Cavemos a terra, plantemos nossa árvore, que amiga e bondosa ela aqui nos será, um dia ao voltarmos em busca de abrigo, ou flores, ou frutos, ou a sombra dará..., canudo na mão. Ouviram do Ipiranga às margens plácidas de um povo o heróico brado retumbante..., salve lindo pendão da esperança, símbolo augusto da paz...
  A fanfarra em algazarra, um dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato, sete, oito, comeu biscoito...,pega na caneca pra tomá café..., marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso no quartel. Independência ou sorte!
(...)
  Sou a voz que clama, a palavra insana, o profeta do exílio, a ralé com fome de filé, a árvore da vida, a fruta proibida de comer, a folha de cobrir a nudez, Dio come ti amo.
  As folhas que leio, não decoro, as frases eu devoro.
  Releio por anseio, auto-estima e devaneio as letras do papiro ilegível. Sou os dedos que ao teclado digitam, a sorte cigana nas linhas da mão, o cego na contramão, o surdo fonema do poema.
  Apenas as impressões digitais do poema são minhas. O resto não vale a pena. Não tenho o dom das escritas clássicas, a perenidade homérica, o canto das epopéias, a habilidade oral de Cícero, a pregação de Vieira, a eloqüência dos bons declamadores, o repente de cordel.
  Meu canto é carne de pescoço, só coisa minha de comer, a ninguém encanta, osso duro de roer. Meu feeling menestrel é fel. Minha fé é Maomé.
  Oro e camelo. Meu oráculo o faço da montanha aos vermes vis dos vales. Minha via venosa é valeta avante, vereda víbora venenosa, vulva vergasta voraz, veneta vulcão Vesúvio.
  Declamo, uma, porque o verso não é meu, outra, se o declamo, parece meu, tão para mim que acredito Deus emprestando voz à mudez do verso meu.
  Minha oração é um muro de lamentação murmúrio, um grito de energúmeno batismo, uma ladainha em coro.
  Meu choro é louro, a esperança de novo.
  Cale a boca, meu verso calabouço.
(...)
  Deus me livre da poesia triste, da alegria prosa do livro prolixo, do proselitismo do escritor fingido de ator. Que minhas linhas sejam lidas pelas ciganas, que meu texto tátil seja compreendido pelos cegos em furo de reportagem, que minha poesia seja declamada pelos gagos, que meu som seja ouvido na mímica dos surdos, que minha peça seja encenada pelos paralíticos, que meu discurso jamais seja usado pelos políticos.
(...)
  Aqui jaz quem não mente, se minto, me processem por calúnia, injúria, difamação, me julguem, me condenem, sou inocente. O que assumo é o assassinato da ficção, o fim do terrorismo lírico. O que juro, raso e assino é o epitáfio..., a lenda da paixão.
(...)
  Mais forte que a morte é o amor. Mais cedo ou mais tarde, se descobre no amor a eternidade. Era uma vez ser feliz, fiz tudo por um kiss. Que não faço por um amor cabaço? Faço tudo, atraído, taro, atiro, piro, até discurso sei que faço. Transo a pena, publico um livro, por amor colapso. Ah! se o amor fosse um laço, enforcasse, fosse um lago, afogasse, fosse a massa de pão, se amassasse, com fome, comesse, um só beijo afagasse, se enfarte matasse!
  Ah!, este amar em vão, amor vassalo, amá-lo na boquinha da garrafa, no gargalo, sempre frágil, retornável, descartável, se afasta, não se dá, não se deixa tomá-lo!
  Vou parar de ficar às turras, Casmurro emburrado, na masmorra de Sócrates. Tomo um gole. A cicuta capitula. É sina filha da puta. Se a castanha não reclama da casca dura, nem a noz-moscada estranha a dureza natural que tem, se a aranha tece a teia em laço-compasso, se as abelhas constroem antes o favo para depositar o mel, para que saber quantos nós as letras rabiscam no papel?
(...)
  Importa morrer ausente de corpo presente qualquer dia, mas sem agonia, ó que dia!, o féretro do funeral à porfia!

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