Outro dia o espelho retrovisor do meu carro entrou no caminho de um motoqueiro. Levei um susto. Estava distraída, parada no congestionamento. Só ouvi o barulho e virei o rosto a tempo de ver meu espelhinho virado para o lado errado e um motoqueiro seguindo em frente. Rapidamente abri a janela enquanto soltava um involuntário ''puxa vida''. Irritado, o rapaz gritou na minha direção algo sobre a necessidade de eu ter ''saído da frente''.
É uma cena comum. Difícil achar alguém por aí que não tenha sofrido um arranhão qualquer no carro. Seja de um motoqueiro apressado, ou da madame que solta a porta do veículo sem se importar com o amassado que deixa no infeliz estacionado ao lado. Já amarguei muitas dessas marcas. É verdade, são bobagens. Mas não deixo de ficar com uma sensação de impotência. Como se tivéssemos que aceitar que vivemos na barbárie onde vence o que gritar mais alto ou bater mais forte.
No entanto, eis que me vi na mesma situação no último sábado. Um motorista calculou mal a distância entre meu carro e o meio-fio e bateu com tudo no meu espelhinho. Novamente, só ouvi o barulho e virei a tempo de ver o carro seguindo em frente. No entanto, o sinal abriu. Notei que, apesar dos demais carros estarem em movimento, o tal motorista parou. Irritada, andei uns poucos metros e parei ao lado. O rapaz abriu a janela e disse o inimaginável. ''Desculpe''. Fiquei tão desconcertada que nem sei o que respondi. Só sei que ele retribuiu com outro ''desculpe'', enfático. ''Tudo bem'', repliquei.
Segui em frente com o coração mais leve. Enfim, não vivemos na barbárie. O rapaz foi desculpado e eu não tive que carregar a mágoa de ter sido agredida. Ponto positivo para a civilidade.
ROSIANE CORREIRA DE FREITAS é da Equipe da Folha

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