Era próximo da meia-noite de uma sexta-feira dessas passadas. Trafegava no sentido Ponta Grossa-Curitiba, pela BR-277, quando passou por mim um insensato. Chamo de ''insensato'' aquele que, sem necessidade nenhuma, é portador de uma ''SUV'' (sigla em inglês dos veículos utilitários), que hoje são cerca de 110 mil no Brasil.
Acredito que aquele que passou por mim foi um insensato, não só porque tinha um SUV, mas porque dirigia a caminhonete em alta velocidade, dando sinal de luz para que saíssem da frente e com o som em volume altíssimo. Ou existe alguma sensatez nisso?
Hoje, as ruas são poluídas de SUVs, com alguns motoristas arrogantes e prepotentes que abusam do tamanho do veículo. Dirigem, geralmente com velocidade acima do permitido, fechando o espaço dos demais veículos. A partir desse fato, passei a pensar sobre Curitiba, cidade que está cada vez mais propícia a tais cenas, principalmente nos sábados à tarde, à noite, domingos e feriados.
Limitei-me a citar esses dias, não por que nos outros não abusem, mas é que em outros dias o trânsito está mais carregado e, às vezes, congestionado, o que não lhes dá oportunidade para executar tais manobras.
Curitiba está mais propícia a abusos desse tipo porque a administração municipal não só os permite, mas os favorece. Nos últimos três anos, a cidade virou um canteiro de obras, e não foi para construir e reconstruir calçadas para os pedestres, principalmente para os idosos e os portadores de deficiência, que atualmente não conseguem caminhar sobre elas. Observe que, mesmo correndo riscos, muitos deles caminham pelas ruas.
As obras tampouco são para construir ciclovias ou ampliar as vias especiais ou preferenciais para o transporte coletivo. A cidade virou um canteiro de obras para favorecer os automóveis, o deus de quatro rodas conforme Eduardo Galeano o classifica. O deus a que muitos se curvam, inclusive administradores.
A cidade está sendo cortada por inúmeras vias: verdes, rosas, azuis, amarelas e a dos acidentes, das mortes. Curitiba, hoje, é formada por inúmeras ilhas.
Dou só um exemplo: vá para a Rua Francisco Derosso pela via rápida que foi feita no sentido contrário ao da Avenida Brasília. Esta via cruza duas vezes a Avenida Brasília, formando duas ilhas. Meu Deus, quanta dificuldade para crianças, idosos e portadores de deficiência cruzarem a rua. Em muitos outros locais da cidade, outras ilhas foram criadas.
A antiga BR-116, que, com a construção do Contorno Leste teve seu trânsito desviado, trouxe a oportunidade da integração da cidade. A integração da Vila Hauer, do Carmo e do Boqueirão com o resto da cidade. Ao contrário de construir naquela região uma extensa área de lazer, cultura, esporte e de transportes coletivo - ou mesmo individual como uma ciclovia - , está sendo transformada em três, quatro e até seis pistas, dependendo da região.
Tudo isso sem passarela ou viadutos que liguem um lado a outro. É o ser humano ilhado, cercado de automóveis e muitos motoristas insensatos por todos os lados. Se ao menos as faixas de pedestres fossem respeitadas.
Dr. Rosinha, médico e deputado federal (PT-PR), presidente do Parlamento do Mercosul.

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