Houve um tempo onde Curitiba era uma cidade de grandes distâncias e incontáveis enigmas. Eu, por exemplo, cresci no Bom Retiro, que tem esse nome pelo simples fato de que ali se localizaram alguns dos mais importantes retiros religiosos da cidade – região propícia a isto, com seus morros e isolamentos –, além de um estranhíssimo asilo, cujos muros sempre foram fontes de todo tipo de mal-estar e temores – o que haveria dentro, o que aqueles muros escondiam?
Morava então na Travessa Born, rua de terra e esgoto à vista, cujo nome deve-se, naturalmente, à população germânica, e que o tempo e o progresso se encarregaram de transformar – para não pouco desgosto dos pioneiros alemães – na importantíssima Carlos Augusto Cornelsen, hoje orgulhosa via de acesso entre os Schaffers e Ahús da cidade. Naquele tempo, ouvíamos falar do São Lourenço como um lugar tão distante quanto a Bessarábia; o limite máximo de nossas aventuras sendo o antigo campo do saudoso Primavera Esporte Clube ou Clube Atlético Primavera – quem lembra ? -, próximo de onde se localiza o Bar do Vítor.
Do São Lourenço – hoje a menos de 5 minutos dali – sabíamos apenas que era o lugar onde se localizavam as temidas cavas do São Lourenço, de onde muitos aventureiros de verão, ansiosos por um banho refrescante, acabavam não retornando, tragados pelas águas – e pela lama – misteriosa, tornando-se um número entre tantos outros, de outras tantas cavas, que ocorriam nos registros necrológicos do fim de semana.
O tempo passou. Graças a um estupendo projeto urbanístico, as cavas só existem, hoje, em um único lugar: na memória de quem viveu aquele tempo de Curitiba. Porque as antigas formações geológicas transformaram-se nos parques da Curitiba Bossa-nova, por onde se chega, de qualquer ponto da urbe, por modernas vias de acesso e sistemas de transporte que, convenhamos, estão bem acima da média nacional.
Mas cada vez que atravesso a Nilo Peçanha e vejo aqueles muros, de pé, resistindo, anacrônicos, com a cidade que explode ao seu redor, me sinto incomodado; cada vez que escuto alguém falar com certeza e precisão sobre o tal ‘‘caráter curitibano’’, sinto, de novo, o mesmo incômodo. O que fazem aqueles muros ali? Do que eles estão falando?
Antônio Cescatto, publicitário

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