Resolvi continuar contando ''já que não sei cantar'' sobre a minha Vila. Se antes falei de sábios, saberes e sabores, agora falo dos cantos.
Não incluo o canto do meu vizinho, mas o dos pássaros que consigo perceber e identificar na Vila Izabel. Não critico o cantar do vizinho, pois pior do que o dele é o meu. Desafino até nas palmas de parabéns.
As manhãs, principalmente dos feriados, são os momentos mais alegres: todos os pássaros procuram mostrar seu canto. Digo ''dos feriados'' porque são os dias em que todas as pessoas parecem dormir até mais tarde, ficando assim as ruas mais silenciosas.
Nessas condições, é possível ouvir melhor pássaros como bem-te-vi, sabiá, pintassilgo, canário, periquito, quero-quero, fogo-pagou e outros mais. Também há um de que não gosto, é o arrolho de pombos ou pombas. Ambos arrolham? Tem também joão-de-barro, mas deste ainda não identifico o canto.
Logo cedo, pouco antes das seis, inicia-se uma algaravia. Como não sou ornitólogo, não consigo identificar quais são. Logo em seguida, meio que sem encanto, mais como um grito, os sabiás mostram que amanheceu e que há vida. O bem-te-vi diz que me viu. Assim, pensando que ele canta só para mim, apodero-me do seu canto. Como na semana passada me apoderei de alguns periquitos.
Não, não fiz nenhum prisioneiro. É que constatei, feliz, que alguns periquitos, confundindo o seu verde com o verde da copa de um pinheiro, me ''periquiteavam'' pela janela. Logo depois, voaram e eu fiquei a ver navios, digo, a ver o céu da Vila Izabel (idêntico ao de Curitiba).
Dias atrás observei dois pintassilgos na antena de TV do edifício ao lado. Miúdos, agitavam-se, batiam asas e cantavam. Cantaram um canto alegre, até serem afugentados por pombos. Ao ver os pintassilgos na antena da TV, lembrei-me da infância e adolescência lá no sítio, e de uma lenda grega que leria muitos anos depois.
Diz a lenda que os pintassilgos têm preferência por arbustos espinhosos. Talvez, no universo dos telhados, as antenas tenham dado a eles a impressão de espinhos.
O Dicionário Mítico-Etimológico de Junito de Souza Brandão informa que Acalântis (akantha) vem de espinho, cuja variante é ''acanto'' (akantos), que em grego significa diferentes espécies de plantas espinhosas (acalantis). Diz ele que acalântis provém de acanthalis, que designa ''o pintassilgo'' pelo fato dessa ave preferir tais arbustos.
Acalântis era uma das filhas de Piero, rei da Macedônia. As Piérides, que eram nove, por serem hábeis cantoras, ousaram desafiar as musas, que não sei se são as mesmas do ''Templo das Musas'', também aqui da Vila Izabel. Vencidas, foram transformadas no pássaro Acalantes, o pintassilgo.
Não sei quais dessas filhas de Piero foram expulsas pelos pombos, mas prefiro-as aos arrolhos, sujeira e piolhos. Aliás, há uma superpopulação de pombos em Curitiba. São tantos, sujando e transmitindo doenças (criptococose, histoplasmose, salmonelose, ornitose, etc.), que já motivam preocupação.
Qual seria a solução? Se depender de mim, substituir os pombos pelo acalanto de Acalântis.
Dr. Rosinha, médico pediatra, deputado federal (PT-PR).

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