EXPRESSO - A MUSA VEGETARIANA
(meu encontro com Fernanda Lima)
Foi tudo muito rápido. Eu derramava suco de laranja no copo quando levantei a cabeça, olhei para frente e a vi. Sim, acreditem: ali, do outro lado do buffet, servindo-se, como eu, do suco amarelado, separada de mim apenas pelos pãezinhos e croissants do café da manhã no hotel florinapolitano, estava ela, a musa. No mesmo instante em que a percebi, achei que ela também havia ''me percebido''. E com um olhar nada usual, diga-se de passagem. Em outras palavras, achei sinceramente que havia pintado um certo ''clima''.
Assim que me virei, com o suco transbordando no copo e o prato vazio na mão, tratei de me recompor. E fui logo desfazendo o que considerei um auto-engano com a mais grave censura. Ora, francamente, não seja ridículo, pensei. Não era ela e, se fosse, certamente não iria prestar a menor atenção em mim. Definitivamente, não.
Imediatemente atribui toda culpa ao sol que, batendo de frente na panorâmica janela de vidro, tornava difícil enxergar qualquer coisa com clareza. Fenômeno típico de refração ótica. Considerei também a possibilidade do sono precário. Havia dormido às quatro da manhã, e quatro da manhã, afinal, é o horário onde normalmente estou me preparando para acordar, não para cair na cama.
Finalmente, achei outra hipótese bem plausível: andava lendo romances em excesso, e a leitura excessiva de romances, sabem todos, tende a fazer o pobre leitor ser assomado por todo tipo de visões, miragens ou pesadelos. Que o diga Madame Bovary.
Quando retornei para a mesa, porém, percebi que meus amigos falavam disfarçadamente, a mão em concha encobrindo a boca, como se contassem algo que o mundo inteiro soubesse mas que fosse deselegante falar em voz alta:
''- Você viu ?'', me disse um deles, apontando com o dedo.
''- Viu o quê ?'', perguntei.
''Fernanda Lima'', ele devolveu, em uma espécie de sussurro.
'' - Fer...o quê ? '', devolvi, confuso.
''Fernanda Lima'', ele respondeu, enfático, ''ali'', apontando para a mesa do outro lado do buffet, em frente à janela.
Então eu tive certeza. Não era imaginação, nem engano. Com o canto do olho tentei vislumbrar a mesa - mas, como já disse, o sol iluminava a baía norte com uma luz que não deixava ver nada além do contorno dos corpos.
Resignei-me ao café. Não iria, de modo algum, encarar o ridículo papel de fã incômodo, ansioso por cercar a vítima com meu estúpido narcisismo. Sendo assim, me mantive firme: nem um olhar, nem um movimento de rosto, nada. Não ia dar a entender que a tinha visto ou que, no próximo instante, partiria para a abordagem com algo do tipo ''Não conheço você?'' Nada disso. Comecei a achar ridícula a excitação das pessoas à mesa. E permaneci indiferente, aristocraticamente indiferente.
Então comecei a comer. Bem, comer talvez não fosse exatamente a palavra. Devorar seria mais correto. Ataquei o queijo branco com sofreguidão, não perdoei o pão com gergelim, engoli o pão integral, o melão, o abacaxi - passei a traçar, enfim, o que houvesse. Enquanto mastigava a comida, mastigava, também, as idéias :
''Mas se eu não havia imaginado Fernanda Lima'', pensava ô será que teria imaginado aquele .... ''olhar nada usual?''.
No mesmo instante, o comando foi dado. Meu Comissário Interno, alertado nos porões stalinistas do subconsciente, imediatamente me chamou à sua presença. Recebi ordens expressas do soviete mental, dizendo-me que não devia pensar nisso e que o melhor a fazer era me concentrar na comida, esquecendo da conversa e da excitação pré-histérica ao meu redor.
Outras forças, no entanto, também entravam em ação. Enquanto resistia aos impulsos irracionalistas, ouvia a voz do Dr Calegari, repetindo aquilo que sempre me diz, toda vez que apareço com meu inesgotável repertório de dúvidas sobre o meu talento e minha capacidade, ansioso, em outras palavras, por afeto e reconhecimento. Nessas horas, invariavelmente, ele ouve tudo com serenidade tibetana, para depois perguntar, com a mais irritante das naturalidades: ''Por que você não acredita no que sente?''
Ora, porque eu não acredito no que eu sinto. Nunca sei porque eu não acredito no que eu sinto. Mas não é a resposta que importa. O que importa é a maldita pergunta. Pois a simples existência dela já me leva a reagir aos impulsos mórbidos e, tomado de uma auto-estima renovada, me arriscar a subir novos degraus na primitiva escala evolucionária do meu pensamento.
A primeira consequência disso, naturalmente, é que passo a olhar a questão de outro ponto de vista; logo me vejo perguntando se o que eu sinto não poderia ser verdade. Incrível como isso muda tudo. É como se, depois de sofrer por meses com um calo reincidente, descobríssemos que a melhora estava aos nossos pés: bastava trocar os sapatos.
Foi o que, imprudentemente, comecei a fazer ali. Trocar os sapatos. Isto é, pensar de outro ângulo. Ou, então, sei lá. O fato é que, imiscuindo-se lentamente nos intersícios mentais, surgiu a pergunta clássica, a causa de tantos desastres na história humana, a precursora de tantas descobertas e equívocos, a terrível, a insondável ''E se?''.
E se - quem sabe, talvez, por um instante. Por que não? Devo dizer que a razão ofereceu uma resistência heróica. Mas o estrago estava feito. O delírio imaginativo cavalgava como um esquadrão de cossacos nos estepes mentais. ''E se um fogo súbito, um instante cármico, uma onda cósmica, algo tipo assim, inexplicável, que não cabe em palavras, raro, incrível, tivesse pintado?''
Regenerado pela dúvida - ou certeza -, decidi que nenhum segundo a mais poderia ser perdido. Era imperativo que uma ação fosse tomada. Se o destino, afinal, havia me presenteado com uma dádiva, quem era eu para recusá-la? Se fora só um engano, porém, como comprová-lo sem encarar corajosamente a verdade? Dane-se o orgulho, pensei. Foda-se a nobreza, concluí.
De posse de um copo de suco - como se, candidamente, fosse enchê-lo de novo - saí, resoluto, e fui me aproximando sorrateiramente da mesa da diva, decidido a iniciar uma conversa pelo motivo mais estapafúrdio que fosse. ''Excelente esse suco de laranja, não?'' ''Já provou o de melancia?'' ''Conhecia Floripa?'' ''Excelente cidade, não é?'' ''Mas não sei se eu viveria aqui''.
Quando me preparava para o primeiro ''Olá'', o sol fraquejou repentinamente, permitindo-me, pela primeira vez, enxergar melhor à minha frente. E o que vi não foi exatamente estimulante. Não havia nada além de cadeiras vazias. Até a toalha já havia sido trocada. Nem sombra dela na mesa, ao redor, no buffet, na sala. Voltei desconcertado para nossa mesa e perguntei sobre a musa:
''Foi embora faz uns vinte minutos'', foi a informação que recebi.
Respirei fundo, peguei o suco de laranja e bebi o que restara no copo. Jurei que nunca mais iria querer vê-la.
Antonio Cescatto, publicitário em Curitiba





