Ó São Paulo, quanta vergonha em Congonhas!

Lanço-me prometeu acorrentado ao vento à tentativa de relatar uma viagem, cujo encanto luziu como um meteoro ofuscado pela noite escura na terra e no firmamento. Ao relatá-la, chegando em casa, pouco crédito darão a excretados escritos ejetados de um estado ébrio de êxtase obnubilado por névoas tabus de esquecimento. A tragédia que escrevo parece resumir-se no sonho absurdo de voar com asas de ícaro ao sol ardente.
Difícil escrever com conexão uma série de fatos que realmente ocorreram e foram testemunhados, sobretudo a tragicidade de citado caso, pois se tornam duvidosos no momento em que penso neles mais detalhadamente, fogem das mãos, se dissolvem na mente.
Não tenho muito mais o que fazer. Já não sou jovem, não tenho plano de saúde, frequentemente fico doente. A terrível e monstruosa tragédia desfigurada e repudiada por todos, agora, após um breve intervalo, a rememoramos, por meio de emocionantes depoimentos. Tive a sensação de haver passado incólume a catástrofe cintilante, emergirevigorado, ainda que pecador elevado ao céu e lá recebido imortal posto chama.
Chovia no paraíso. Eram maravilhosas as gotas esparsas pingando no éden pingado de cães divinais, ovelhas, cabritos, bois e cavalos, leões e leopardos, todas as feras em paz pastando, assim como os peixes em ondas plácidas a navegar e os pássaros sem gaiolas a aprisionar. Ali encontrei o Padre Eterno, cabeça inclinada, absorto, absoluto, lendo nos joelhos o livro da vida escrito hebraico, latim, aramaico e grego, e das letras iam saltando dragões, serpentes e pombinhas que pareciam significar o invisível Espírito Santo, e que desapareciam em silêncio voando na direção das árvores iluminadas pelo luar. Fitei-o em respeitoso silêncio, a aura e a íris santa, nas mãos sagradas o purpúreo cálice do Santo Gral.
O rei Davi usava uma coroa hierática, comia uma maçã colhida de manhã. Dissipava seu aborrecimento recitando os salmos que igualmente escrevia, tocava a harpa de Sião para o rei Saul. Um homem estranho e amável deu as caras, prestes a desaparecer, senti romperem meus poderes de comedimento. Corri atrás dele com desespero e gritei:
- Jesus!
O mestre que brinca de ressuscitar provava que a vida não passa de um jogo. Exatamente isso: a vida é um jogo!
Voltei a impressionar-me de maneira dolorosa com o fato que observara diversas vezes desde que as asas derretidas ao sol chocaram-se no ar com outras asas que não sabiam voar. Ao solo em prantos, colidiram. Um malvado urubu cegou-me a caminho de Damasco em sinal de presságio que mais vingança dia virá.
Ó São Paulo, quanta vergonha em Congonhas!
Até quando, tanta dor no ar, no lar, no bar?
Notei que os passageiros da agonia aérea eram pessoas entusiasmadas e vivazes com tal efêmera vida e por certo mais perfeitos e reais do que as ficções poéticas. Era minha imagem desagradavelmente imprecisa, a ficção distorcida, a tragédia teratológica do fato real.
- Mas isto é muito triste, disse-me, ensimesmado. É a lei?, indaguei, sem ser respondido.
Posso ainda ouvir as vozes, os gementes ranger de dentes dos aflitos, o silêncio comovente das vítimas insepultas, que caíam irmanadas por entre semblantes graves. Escutava-as tontas, em chamas, agitadas, se ajeitando, evaporando-se na fumaça da sarça ardente da explosão. Posso ver as últimas velas arderem lentamente até se consumirem adormecidas em funéreo caixão. Como um dos últimos remanescentes da tragédia, sinto-me apenas um objeto abjeto, a caixa preta escriba falante que registra em precária narrativa as raias macabras de incompreensível episódio.
Tenho em minhas mãos não a trama, mas o código emaranhado de fios para serem desembaraçados. Cada fio se torna tão terrivelmente frágil e se rompe por entre os dedos ao serem tocados. Onde está o centro dos fatos, o ponto comum em torno do qual gravitarão os fios que permitirão a casualidade, a coesão, a teia da unidade?
Coloco de lado a pena com a esperança de continuar amanhã ou em qualquer dia, ou mesmo de recomeçar uma nova narrativa. No fundo de minhas intenções, de minha necessidade premente de relatar a história, existe uma dúvida terrível. Esta história pode ser contada sem a isenção da ficção?
Ao escrever, não penso em outros leitores ou nos que tombaram heroicamente, mas exclusivamente em mim como sobrevivente. Era como se delirasse deficiente, ou estivesse pré-morto, cercado de corpos calcificados. Perdoe-me, sinto o sono profundo dos moribundos. Quero ir embora para casa. Minha viagem fundiu-se à substância que flui mais viva e real do que as criações dos próprios poetas. Preciso descansar. Nada posso mais dizer, nem uma só palavra. Adeus.

José Aparecido Fiori, jornalista e escritor

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