Memória das falsas vidas virtuais

  Nos Estados Unidos, uma menina de 14 anos, filha de um pastor, fez uma denúncia para a polícia dizendo que seu pai a violara diversas vezes desde a sua infância. Por esta razão, a polícia prendeu o pai.
  Primeiro ele silenciou, mas depois ele aceitou a acusação e revelou detalhes do acontecido para a polícia. Foi processado e preso. Muitos anos após sua prisão, a menina outra vez foi para a polícia e confessou que havia mentido, o pai dela nunca a tinha violado. Ela dizia que nada daquilo era verdade. Novamente os detetives pesquisaram o caso, e concluíram que o pai era realmente inocente.
  Então vieram os cientistas para investigar essa história, eles colocaram em pauta como foi a criação de detalhes pelo pastor, na confissão de um fato sem veracidade. O homem foi destruído pela acusação da própria filha. Eles deduziram que se ele dissesse que a filha era uma mentirosa ou defendesse ele mesmo, teria problemas do mesmo jeito. Acabou por preferir acreditar na mentira da filha, e criou os detalhes, de forma que vivenciou a sua imaginação como se fosse a realidade. A história foi produto de uma falsa memória. Memórias falsas não tem relação com fatos, geralmente são frutos de vivências traumáticas.
  Cientistas pesquisam diferentes interpretações de acontecimentos coletivos e levantam suas hipóteses. De acordo com eles, o cérebro tem um lado que é responsável por falsas memórias, e muitas vezes, somente depois de uma reavaliação, a pessoa entende que os sentimentos não são parte da percepção do real, mas sim da dimensão virtual. Assim, um mesmo acontecimento vivido por diferentes pessoas, é narrado de muitas variadas formas. As histórias chegam a ser completamente diferentes, e as pessoas insistem que estão narrando a realidade dos fatos.
  No livro ‘‘Crime e Castigo’’, de Dostoiévski, tem um interrogatório de um juiz que conta sobre um homem que confessou um assassinato. Ele disse qual era a razão do assassinato, acreditava que ele era o responsável pelo tal crime. Mas ele não era o verdadeiro assassino, era inocente. Bem como o pai nessa história real, da menina americana citada acima.
  Se uma parte da nossa memória é falsa, então nossa vida tem uma parte irreal também. Nosso cérebro inseriu memórias falsas e podemos talvez não conhecer nossa real história de vida. Temos vidas virtuais.
  Talvez a afirmação do romancista Gabriel García Márquez seja verdadeira: ‘‘As memórias do real são como espíritos, são falsas memórias criadas e que tornam-se realidade’’ .
EROL ANAR é escritor turco radicado em Curitiba


Escravos da tecnologia

  Da minha cozinha, vejo uma execução na China. Do meu computador, tomo conhecimento da dor de dente do meu primo no Japão – caso tivesse algum vivendo por lá. Na sala, na frente da TV, vejo um ‘borracho’ (bêbado) solitário, cantando um tango numa rua de Buenos Aires.
  Estou tomado de liberdade e felicidade. O avanço da tecnologia me conectou com o mundo. Tenho um celular pré-pago, que sustento com o dinheiro de outras coisas que poderiam ser mais importantes, como, por exemplo, a comida. Prestações da TV e do computador seguem atrasadas, mas estou inserido no mundo. Inserido?
  Graças a essas e outras bugigangas, alguns se imaginam felizes. Coitados, estão cada vez mais dependentes dos dominadores. Um dos aparelhos da tecnologia que nos domina é o celular. Independentemente do que estiver fazendo, ao toque do celular, o cidadão ou cidadã interrompe tudo para atendê-lo.
  Se uma mensagem chega, o celular dispara um irritante apito. É impossível ignorá-lo. Se o celular toca e você não atende, fica registrado o número de quem chamou. Mesmo que você não saiba de quem é o número registrado, dá o retorno. Ou seja, dá o lucro à empresa telefônica.
  O capital domina você: para a mensagem chegar, alguém ganhou dinheiro. E mais: dominou-o, interrompeu o que fazia. Ao invés da liberdade, a tecnologia está nos tornando escravos dela. E o pior dos escravos, o dominado, embriagado pela ‘‘liberdade’’ tecnológica que, ano após ano, atinge um maior número de pessoas e parece irrefreável.
  No mês passado, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) divulgou que, no Brasil, há cerca de 101,2 milhões de linhas de telefone móvel (celular) em operação. Desse total, 80,5% são pré-pagos, ou seja, os que dão maiores lucros às empresas.
  Em alguns locais, a quantidade de celulares supera a população, como é o caso de Brasília (111,9%). Isso também é sintomático, pois parte das contas desses celulares é paga por você, que lê esta coluna, e pelos demais brasileiros.
  O Brasil tem 188,7 milhões de habitantes, grande parte pobre e um outro tanto de miseráveis. No entanto, são mais de cem milhões de celulares.
  Não que pobres e miseráveis não tenham direito ao celular, mas será que não há outra prioridade para suas vidas? Será que não são escravos da propaganda, do capital e da moda? Sim, da moda, pois quem está fora de moda está fora da sociedade. Melhor dizer: está fora de moda quem não aceita a cultura dominante.
  Enquanto sonho, um dia, ver-me livre dos celulares (não do avanço tecnológico), jovens adolescentes sonham tê-los. Na propaganda, o aparelho aparece como algo essencial para ir a festas, namorar, fazer amigos, etc. Como se não existisse vida sem o telefone celular.
  Não nego: para alguns poucos o celular é essencial.
DR. ROSINHA é médico pediatra e deputado federal (PT-PR)

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