EXPRESSA - Donos da cidade
Curitiba fez 316 anos no último mês de março ou irá fazer 341 anos no próximo dia 4 de novembro? Este é um debate que o atual grupo político que governa o município ignora.
Quando prefeito, Rafael Greca decidiu que Curitiba foi fundada em 29 de março de 1693, data em que Ouvidor Pardinho, hoje nome de uma praça, estabeleceu como de criação de Juízes e Oficiais da Câmara. O Ouvidor também definiu que o Pelourinho foi levantado em 4 de novembro de 1668.
Tanto uma como outra data dependem da interpretação do historiador. No caso, foi a interpretação do ex-prefeito que fez da primeira a data de aniversário do município. Não podemos ignorar, também, que ambas as datas foram definidas pelo Ouvidor Raphael Pires Pardinho através de "Provimentos Ouvidoria Geral da Comarca de Paranaguá", em 20 de janeiro de 1721. Se levar em consideração este documento, Curitiba fez 284 anos. Mas não é isso que importa.
O que importa é que Curitiba está mudando de cara, pelo menos foi assim que esta FOLHA (sexta-feira, 27/3) homenageou a cidade. Homenageou o município e, com justiça, se autohomenageou ao mostrar a capa de alguns dos seus cadernos Folha Curitiba publicados nos últimos dois anos.
Curitiba, como qualquer outra cidade, é como água passando debaixo da ponte: nunca é a mesma. Estou aqui há 40 anos e, hoje, constato que ela pouco tem a ver com a cidade de 1969, quando aqui cheguei. Mudou de cara, costumes, cultura e, como vimos, muda até a própria história.
Mesmo com dúvidas sobre a sua idade, aproveitei a data e fiz meu roteiro de aniversário e aniversariante. Explico. O aniversário é da cidade e, como nela vivo, contribuo e participo, também sou aniversariante. Mesmo na condição de festejar e ser festejada, não comi do bolo e nem cantei ou me cantaram parabéns.
No meu roteiro não incluí cinema, museu ou teatro. Tampouco incluí a feirinha do Largo da Ordem. Foi um roteiro diferente: visitei alguns bairros da periferia. Vi a cidade de menos de 50 anos de idade. A cidade onde a juventude não tem lazer nem esperança. A cidade onde a pedra de crack é oferecida a crianças que ainda não têm cinco anos de idade. A cidade que só é visível, com algumas exceções, nas páginas policiais.
Visitei uma dessas exceções: o trabalho desenvolvido pelo Centro de Assistência Social Divina Misericórdia, sob a direção da irmã Anete Giordani, na Cidade Industrial. Este centro desenvolve um trabalho na comunidade Sabará, parte da cidade que tem menos de 50 anos. O centro desenvolve atividades com crianças e adolescentes, e estava em festa.
Por ação de um empresário de Curitiba, que fez a doação de um terreno, o centro está erguendo, com o apoio da Instituição Irmãos Maristas, uma construção para atividades de esporte e lazer da comunidade que vive perto das ruas Rio Passaúna e Maria Rosa Guerreira do Contestado. Sim, esta é uma Curitiba que os donos da cidade ignoram.
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente do Parlamento do Mercosul.





