Explorando as diferenças
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de junho de 2008
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Não é apenas a distância física de 369 quilômetros que separa londrinenses e curitibanos. Outros fatores, como o tipo da colonização, a densidade demográfica e até mesmo o clima, ajudam a explicar por que os paranaenses oriundos das duas maiores cidades do Estado apresentam tantas diferenças entre si. Para tentar desvendar essa questão, a reportagem da FOLHA ouviu profissionais de diversas áreas, como esporte, cultura e comunicação, que nasceram na Capital e migraram para o Norte, ou vice-versa, para comentarem as peculiaridades dos moradores de cada região.
Nascido em Londrina, o analista de sistemas Daniel Carvalho Dias veio para Curitiba em 1997 em busca de uma oportunidade de trabalho em uma multinacional. Foi transferido para Florianópolis e depois de três anos retornou à capital paranaense. Segundo ele, esse espaço de tempo foi suficiente para notar algumas diferenças. ''Não se vê mais aquele curitibano típico , fechado'', observa.
Sua teoria é que a cidade cresceu, recebeu mais gente de fora e com isso algumas características mudaram. Para ele, a palavra que melhor explica a índole do morador da capital não é ''fechado'', como muitos costumam defini-lo, e sim ''reservado''. ''Um curitibano não vai na casa do outro num domingo à tarde sem avisar, coisa que o londrinense faz'', exemplifica.
O ex-goleiro Raul Plassmann também teve a oportunidade de observar o jeito dos moradores das duas cidades, mas com o olhar de um estrangeiro. Nascido em Antonina, no Litoral do Estado, ele foi técnico do time do Londrina e secretário de Esportes da Prefeitura de Curitiba. Dentre as diferenças que ele observou, a maioria está ligada às características de cada cidade. Curitiba, segundo ele, tem um ritmo acelerado, que impõe uma vida mais estressante a seus habitantes. ''Já Londrina é um sossego, é o lugar pra gente voltar depois de se aposentar para descansar'', avalia.
Dentro da sua área da atuação, o futebol, Plasmann observa que o londrinense é bem mais influenciado pelo futebol paulista do que pelo paranaense. Em sua avaliação isso se deve à fragilidade do time do Norte, que nem sempre disputa a Série A do campeonato. Em Curitiba são três clubes que dividem a atenção do torcedor. Apesar dessas diferenças, ele acredita que o grau de paixão pelo futebol é igual em ambas as cidades.
Nas artes também se evidenciam idiossincrasias entre curitibanos e londrinenses. O produtor musical e compositor Robinson Borba, radicado em São Paulo, costuma comparar a ebulição cultural que surgiu em Londrina na época dos festivais de música, onde despontaram Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e outros nomes, com o centro magnético formado pela banda curitibana A Chave, que na época ensaiava em uma casa branca frequentada por artistas de diversas áreas.
Nascido em Londrina, Borba conheceu a capital paranaense entre os anos 60 e 70, em um momento em que a cultura brasileira tratava de se reinventar e descobrir seus novos caminhos. Nesse contexto, as diferenças entre os habitantes das duas cidades perdiam um pouco a nitidez. Foi com a distância do tempo que ele pôde analisar esses contrastes com mais calma. ''Na área da música sinto que as pessoas têm medo de mostrar um trabalho novo em Curitiba, têm medo de arriscar porque a crítica lá é bem ácida. Em Londrina parece que o pessoal tem menos medo disso'', compara.


