Exigência muda perfil da mão-de-obra
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de dezembro de 1997
Curitiba 
As montadoras que estão deslocando o pólo industrial do ABC paulista para o interior de São Paulo e o Sul do País têm definido um critério para contratação dos empregados da linha de produção: ter o diploma de 2º grau. Em Curitiba, isso será regra para as fábricas da Chrysler, da Volks/Audi e Renault. Todos os 320 operários da Volkswagen, em São Carlos (SP), têm o mesmo perfil.
A decisão dessas empresas demarca uma mudança de consequências ainda imprevisíveis para o futuro. Isso porque a maioria dos metalúrgicos da Grande São Paulo tem apenas o 1º grau - completo ou mesmo incompleto. É esse o caso, por exemplo, dos 25 mil empregados da Volkswagen no ABC. Ao dar um salto no quesito educacional exigido, essas novas fábricas estariam transferindo para o País um mecanismo dos países desenvolvidos.
Até a década de 80, a experiência do empregado era o mais importante, porque a tecnologia não mudava. Do início dos anos 90 em diante, isso acabou e o conhecimento passou a ser vital, aponta Walter Trigo, gerente de Relações Trabalhistas e de Operações de Recursos Humanos da Ford, em São Bernardo do Campo. No ABC, onde os empregados têm uma vida toda de experiência profissional, a educação escolar ainda não é pré-requisito para se ter um emprego.
Albari RosaMão na massaNa Volvo, 5% dos horistas possuem curso superior: maioria se interessa em prosseguir nos estudos
Aprender InglêsNa Ford, 39% dos horistas têm o 1º grau completo, mas 15% estudaram só até a 4ª série. Os que têm o 2º grau ou um curso técnico são 37%. Esse perfil faz com que a empresa estimule seus empregados a voltar a estudar. São mantidas cinco salas de aula. No último semestre, 129 empregados acabaram o 1º grau. A mão-de-obra do interior paulista e do Sul é melhor educada. Eles têm mais preparo para disputar uma vaga no mercado, avalia Trigo.
Todos os 843 horistas da fábrica de caminhões da Volvo, de Curitiba, têm o 1º grau, sendo que 35% cursam o 2º grau, 40% já são formados, 20% estão na faculdade e 5% são diplomados. Zaida de Borba, chefe de Recursos Humanos da Volvo, evita comparações, mas concorda que a educação facilita muito. Para montar o caminhão Globetrotter em Curitiba, a Volvo mandou técnicos e montadores para a conclusão de um curso de Inglês na Suécia.
É difícil fazer uma comparação sobre a qualificação da mão-de-obra de regiões diferentes até porque a quantidade de empregados exigidos pelas fábricas paulistas é muitas vezes superior. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 1995 da FIBGE, o nível educacional da pessoas com mais de 10 anos ocupadas nas regiões metropolitanas de São Paulo e de Curitiba não é muito diferente. Os analfabetos estão na faixa dos 5%.
Em São Paulo, 34,2% têm de quatro a sete anos de instrução. Em Curitiba, são 33,8%. Os que estão na faixa de oito a dez anos são 20,5% dos paulistas e 16,2% dos curitibanos. Entre onze e catorze anos, ficam 19,7% dos habitantes de São Paulo e 19,4%, dos de Curitiba. Acima de quinze anos, existe uma faixa de 10% .
Investir na educaçãoOs trabalhadores não têm a vivência do operário do ABC, mas a escolaridade facilita o aprendizado. Os treinamentos não precisam ser longos porque as pessoas aprendem depressa, indica Zaida de Borba, da Volvo. É exatamente nisso que estão apostando os responsáveis pela criação do pólo industrial no Sul do País.
A experiência da Fiat, em Betim (MG), é um adicional para essa comparação. Lá, como em São Paulo, a maioria dos trabalhadores têm apenas o 1º grau completo. Mas a empresa investe pesado em educação. Neste ano, foram gastos R$ 5 milhões em cursos: dos supletivos de 1º e 2º graus até treinamentos, de até três meses, em parceria com o Senai para preparar um novo empregado.


