Reprodução Agência EstadoLENTE DA HISTÓRIAEm 1935, os intelectuais captaram outro aspecto da villa de Londrina em foto, publicada no documento do Estadão

Reprodução Agência EstadoHá 64 anos, no sertão do Tibagi, Londrina florescia nas enormes perobas transformadas em casas e sonhos de pioneiros de todas as partes do mundo



ExclusivoVIAGEM AO SERTÃO

Roldão Arruda
De São Paulo
Especial para a Folha


Claude Levi-Strauss, considerado o maior antropólogo e um dos mais importantes pensadores desse século, visitou Londrina, em 1935, apenas um ano depois da instalação oficial do município. Vieram com ele outros dois ilustres intelectuais, que influenciaram gerações de cientistas brasileiros da área de ciências humanas - o sociólogo Paul Arbousse Bastide e o geógrafo Pierre Mombeig. Os três ficaram uma semana andando pela região. Os relatos que fizeram da viagem, acompanhados por dezenas de fotografias, constituem um documento histórico notável - e inexplicavelmente ainda pouco divulgado. Nessa edição histórica, a Folha apresenta aos seus leitores um pouco da aventura dos cientistas que vieram ver de perto a conquista de uma nova terra, algo inimaginável aos olhos de um europeu.



Intelectuais se curvam ao paraíso selvagem
Em 1935, o Norte do Paraná não se parecia nem um pouco com o paraíso. No paraíso, até prova em contrário, não existem precárias estradas de terra, quase intransitáveis na estação das chuvas. Nem faltam fósforos e sal. No entanto, para os três intelectuais que vieram conhecer a região naquele ano, ela lhes pareceu o paraíso. Com suas duas partes - o verso e o anverso.
Na época, os três ainda eram jovens. E ninguém se arriscaria a dizer que um dia seriam pessoas famosas. O que se tornou mais conhecido entre eles, Claude Levi-Strauss (único ainda vivo da jornada, hoje com 91 anos e residindo em Paris), tinha 27 anos e parecia sempre inquieto, mas de pouca fala - como se quisesse gastar todo o tempo em observações. Hoje ele é considerado quase uma instituição intelectual francesa e seus livros, entre os quais Tristes Trópicos e Pensamento Selvagem são tidos como clássicos em estudos de etnologia, tendo influenciado cientistas no mundo todo. O antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro foi um deles.
Levi-Strauss e seus companheiros de viagem, Paul Arbousse Bastide e Pierre Mombeig, estavam no Brasil há poucos meses. Haviam sido contratados para ensinar na Universidade de São Paulo (USP), criada em 1934, ano da fundação de Londrina, e mostravam grande interesse em conhecer o interior brasileiro, especialmente uma dessas regiões de fronteira, também chamadas de pioneiras, nas quais a civilização força a sua passagem. Um dos motivos pelos quais haviam trocado Paris pela ainda acanhada São Paulo era justamente a possibilidade de acompanhar de perto transformações que na Europa haviam cessado há muito tempo. Por isso, quando surgiu o convite para conhecer o Norte do Paraná, que estava sendo desbravado, não hesitaram.
Bastide e Mombeig tinham a mesma idade de Levi-Strauss. O primeiro era um jovem corpulento, de movimentos pesados, voz monocórdia, que contrastavam com seu pensamento sutil, ágil e elegante. Ensinava sociologia e política, mas se destacava também na área de pedagogia, tendo sido admirado por importantes intelectuais brasileiros, entre os quais Antonio Cândido e Maria Isaura Pereira de Queiroz.
O geógrafo Mombeig também se tornaria figura de destaque em sua área de estudos, reconhecido em todo o mundo. Ele foi vice-presidente da União Geográfica Internacional e, dos 60 trabalhos que escreveu, assinalando sua produção científica, 40 foram referentes à geografia brasileira. Sua tese de doutoramento na Sorbonne, em 1952, foi sobre Plantadores e Pioneiros de São Paulo.
Os três passaram cerca de uma semana no Norte do Paraná. E voltaram impressionados.

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