Excesso de zelo nos termos também incomoda negros
Vilma de Oliveira não é idosa. É velha. Ela mesmo faz questão de dizer. Quando combinou com a reportagem um local para a entrevista, disse ao repórter que procurasse ''uma velha negra''. É, também, afro-descendente sim, mas mais por necessidade do que por opção. Se pudesse escolher, seria simplesmente ''negra''.
Presidindo o Conselho Municipal da Comunidade Negra de Londrina, Vilma acredita que a expressão politicamente correta ''afro-descendente'' é um mal necessário. A palavra negro, segundo ela, já deixou de ser usada como um mero fator de identificação para se transformar em uma ofensa. ''Quando uma criança negra faz bagunça na sala de aula, o professor nunca se lembra do nome dela: mas sempre se lembra da cor. 'Neguinho, pára de bagunçar', dizem. Isso não poderia continuar até porque estava provocando evasão escolar. Muitas crianças estavam perdendo o prazer de ir à escola'', conta.
Mas a opção pelo termo ''afro-descendente'' não se deu simplesmente para que o preconceito pudesse ser combatido. A própria Vilma admite que a possibilidade de que esta expressão logo se torne também algo preconceituoso existe e é grande. ''A questão também é étnica. 'Negro' refere-se somente à uma cor e não à nossa origem'', explica.
No dia-a-dia, Vilma passa por momentos alternados sobre como as pessoas fazem referências à origem africana da presidente do conselho. Entre amigos e parentes, 'Neguinha' e 'Minha Nega' são as expressões usuais. ''Denotam carinho. Me sinto querida e próxima destas pessoas'', conta. ''Por outro lado, parece que às vezes as pessoas fazem questão de dizer que sou negra. Elas já estão vendo, mas precisam dizer também'', lamenta.
O excesso de zelo também a incomoda muito. Em conversas com desconhecidos, Vilma cansou de ver políticos e autoridades se referirem à comunidade negra com expressões como ''pessoas como ela''.
''Hoje, existem leis que nos garantem alguns direitos e que combatem a discriminação. Sei que o politicamente correto não é o ideal, mas infelizmente ele se faz necessário, pois mesmo depois de 130 anos de luta, ainda há pessoas que insistem em trocar nossos nomes por nossa cor'', diz Vilma, para completar: ''O que eu quero, na realidade, não é ser tratada de uma forma politicamente correta. É ser tratada corretamente''.(A.M.)





