Ex-membro condena atitudes da Obra
O profissional de direito Marcio Fernandes da Silva, 36 anos, morador de São Paulo, conheceu a Opus Dei ainda criança. Convidado por um vizinho, ele, na época com dez anos, aceitou o convite de frequentar as atividades recreativas e culturais oferecidas por um centro próximo de sua casa. ''Meus pais não se opuseram porque desconheciam o movimento. Sabiam que era da Igreja e me deixaram ir'', lembra.
Durante vários anos, Marcio ia ao centro interessado na montagem de mini-aviões e outras atividades extras realizadas com colegas e adultos responsáveis. ''Mas tudo isso é pretexto para captar pessoas para a Obra. Durante as tarefas e encontros, existe a doutrinação. Tudo acontece de maneira muito sutil, mas sem dúvida o objetivo maior não é desenvolver habilidades, mas sim recrutar pessoas'', afirma.
Marcio foi durante quase um ano numerário da Obra. Tornou-se membro aos 18, idade mínima exigida. ''Quando tinha 15 anos, os numerários do centro que eu frequentava me chamaram para dizer que tinha um dom, que Deus estava me chamando. Quando se é jovem, somos muito moldáveis e aceitei a idéia'', conta.
Menos de um ano depois, algumas atitudes começaram a incomodar o jovem membro da Obra. ''Percebia que as pessoas lá se mostravam felizes para os outros mas na intimidade estavam sempre tristes. Percebi também um preconceito por parte dos numerários com pessoas pobres, de famílias complicadas. Essa diferença entre discurso e prática me decepcionou. A Igreja é amor e eu não via isso lá'', diz.
Segundo ele, a imagem passada pelo livro de Dan Brown e o filme O Código da Vinci é um pouco exagerada. ''Digo que a Opus Dei é um exército, mas não armado nem usuário da força. Não existe treinamento de luta ou uso de força física, mas o uso do cilício (anel com pontas de ferro colocada nas coxas) e das disciplinas (chicotadas para auto-flagelação) é quase obrigatório. Quem não pratica passa a ser tratado diferente. Outro ponto importante é o domínio espiritual que eles fazem. Quando decidi sair, me falaram que seria infeliz, que iria para o inferno'', comenta.
Para contar sua história dentro da organização, Marcio se uni a outros dois ex-membros e escreveu o livro Opus Dei - Os bastidores (Editora Verus) em 2005. Lá, os três relembram suas angústias, medos e conflitos. ''Hoje sou um cristão que acredita em Jesus Cristo, mas sabe separar o que é divino dos erros humanos cometido em nome da Igreja.''®MDBO¯®MDNM¯ (H.F.)





