Eta cafezinho bom
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de junho de 1997
Simone Mattos 
A imagem de um dos mais antigos e tradicionais cafés de Curitiba, o Café Alvorada, na Rua das Flores, foi registrado pela fotógrafa Vilma Slomp, na década passada. A foto foi publicada pela edição francesa da Revista Zoom, em 86, e está exposta no International Center of Photograph, de Nova York, e no Musée Français de La Photographie, de Paris. Recentemente, a imagem também foi adquirida pelo acervo do Worcester Art Museum, de BostonPuro, quente e forte. Após sentir seu cheiro, a paixão pode ser inevitável. O vício virá com o tempo. Poucos resistem ao aroma inconfundível de um bom café fumegante. Especialmente no inverno. Ele acende as pessoas, diz a fotógrafa Vilma Slomp, autora de uma das mais belas e famosas fotos brasileiras sobre o tema. Quando meus filhos pedem para beber achocolatados com leite, por exemplo, eu digo que não: têm que aprender a tomar café!
Apesar de ser bem-vindo em todas as estações do ano, o café registra recordes de venda na estação fria, quando costuma ser encorpado com bebidas alcoólicas e cremes. O movimento aqui é grande em todas as horas do dia e da noite, incluindo a madrugada, afirma Ricardo Augusto Gomes da Silva, proprietário do Café do Ponto, que tem uma de suas lojas na Rua 24 Horas.
Além deste, vários outros locais de Curitiba se tornaram pontos de encontro para os amantes do café. O 2ª Via Café, no calçadão da Rua 15, em frente ao Cine Ritz, é o preferido dos boêmios. O Café da Ópera, no subsolo da Ópera de Arame, é o escolhido dos discretos casais. Os cafés aromatizados, encontrados nos shoppings Batel e Crystal e na Rua 24 Horas conquistam cada vez mais adeptos.
Os cafés localizados na Boca Maldita, há décadas funcionam como endereço certo para as reuniões da Confraria. Ali nada faria sentido sem o café, que é o fundamento dos encontros, admite um antigo frequentador.
O video-maker Carlos Deiró toma em média dez cafés espresso por dia e garante que a técnica melhora o raciocínio
O café se transformou numa questão cultural, sócio-econômica e intelectual. Já inspirou vários escritores, que versaram sobre o tema, como Mário Quintana que falou sobre o aroma e o prazer em beber café. Hoje merecia ser feita uma poesia sobre o funeral do café, diz Aramis Chain, dono da mais tradicional livraria da cidade. Ele se refere à perda de espaço do Paraná no mercado nacional da produção de café, antes liderada pelo Estado.
Polêmicas à parte, além do acentuado aroma e sabor, o café sempre marcou presença no meio intelectual. Ele está associado às livrarias e espaços culturais da Europa, explica o vídeo-maker Carlos Deiró, um amante declarado do café. Em Amsterdam, existem locais próprios para ler e jogar xadrez, onde o café é presença indispensável, comenta.
Muitos book-shops, ou livrarias, da Inglaterra também mantém a tradição de servir café aos seus clientes, enquanto estes saboreiam os melhores trechos dos livros mais interessantes.


