Imagem ilustrativa da imagem Estudantes vão à escola, mas não aprendem



Levar os alunos ao aprendizado consistente ainda é um grande desafio para os países em desenvolvimento. "O Brasil não é uma exceção. Conseguimos colocar as crianças na escola, mas elas não estão aprendendo", lamenta a professora da FGV-RJ e diretora do Ceipe (Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais), Claudia Costin, uma das painelistas do EncontrosFolha.

A afirmação é corroborada por resultados de testes como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) ou mesmo o Ideb (Índice de Desenvolvimento em Educação Básica). Conforme a especialista, indicadores são fundamentais para ajudar governantes e gestores em educação a identificarem falhas e pensarem em soluções para o problema. Os números relativos ao Brasil, infelizmente, são pouco animadores.

Entre 70 países, o País está na posição 69ª em matemática, no 59º lugar em leitura e em 63º em Ciências no Pisa. "É um teste contemporâneo, centrado em competências. Mostra que temos muito a melhorar", considera.

Informações do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) revelam que, no ideb, a meta dos anos iniciais do Ensino Fundamental (1º ao 5º) para 2015 foi alcançada por 74,7% das redes municipais. A nota passou de de 3,8, em 2005 para 5,5, em 2015, último ano com resultados divulgados.

Nos anos finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º), o índice evoluiu, mas a meta não foi cumprida. Em 2013 a nota foi de 4,2, passando para 4,5, em 2015. A meta
era chegar a 4,7. No Ensino Médio, a situação é ainda pior, pois a meta do Ideb não foi alcançada e o índice permanece estagnado desde 2011: continua em 3,7 apesar da expectativa de chegar a 4,3.

O Ideb considera o nível de aprendizagem em cada fase – avaliado por meio da Prova Brasil – e o rendimento, expresso nas aprovações e na permanência das crianças e adolescentes na escola ao longo dos anos.

Costin admite que, nos primeiros anos do Ensino Fundamental, "o Brasil não está um desastre". "Conseguimos incluir todas as crianças na escola, e desde 2005, os índices melhoram. O problema é que caminhamos devagar demais", pondera. Nos anos finais e no Ensino Médio, o índice cai nos dois critérios: as notas são mais baixas, há mais reprovados e maior abandono.

A professora Claudia Costin irá avaliar as ações do País visando assegurar educação inclusiva e equitativa de qualidade, conforme compromisso assumido com a ONU
A professora Claudia Costin irá avaliar as ações do País visando assegurar educação inclusiva e equitativa de qualidade, conforme compromisso assumido com a ONU | Foto: Divulgação



"Os índices indicam que temos um problema a ser enfrentado", reforça a professora, que aponta uma hipótese importante para justificar o baixo desempenho. "A formação dos professores no País tem sérios problemas. Eles não são preparados para essa profissão", afirma.

Segundo Costin, os professores de educação básica recebem, na graduação, conteúdos excessivos sobre sociologia, história ou filosofia da educação, mas não aprendem didática específica para a área na qual estão trabalhando. O professor de matemática, por exemplo, aprende muitas coisas sobre a disciplina, mas não aprende a dar aulas de matemática, indicando que o problema é ainda maior nos anos finais do Fundamental e Ensino Médio, quando há professores especialistas para cada disciplina. "Países com sucesso em educação formam professores para a profissão, com prática profissional desde o primeiro ano. Os estudantes entram em sala de aula para ensinar desde o início da faculdade", compara.

A palestrante do EncontrosFolha pondera que, apesar de importantes, os índices não capturam tudo, mas são um alerta para que gestores identifiquem de modo mais exato quais as competências que os alunos não estão desenvolvendo.

A Avaliação Nacional de Alfabetização, segundo ela, apontam que o Brasil tem um grande problema na alfabetização, expresso na conclusão de que 54% das crianças do terceiro ano do Ensino Fundamental não sabem ler. De acordo com a Prova Brasil, 83% dos alunos do 9º ano apresentam índice insuficiente em matemática. "A crise do Ensino Médio não começa no Ensino Médio. A maioria chega nesta etapa sem saber matemática e terá que aprender física e química. Há grandes chances de abandono da escola", sentencia.

Na primeira edição do EncontrosFolha de 2018, Costin vai falar sobre o quarto objetivo previsto do documento "17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável", lançado pela ONU (Organização das Nações Unidas) e assinado por 194 países, incluindo o Brasil. O objetivo em questão, que deve ser cumprido até 2030, prevê assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos. "Pretendo avaliar o que já fizemos e o que podemos construir a partir disso", avisa.

A especialista garante que não vai adotar um discurso de desesperança, mas insiste que mesmo os aspectos nos quais há avanços precisam ser acelerados. "Temos que parar de ser condescendentes com nós mesmos e encarar os desafios", pede.

Questionada sobre o fato de grande parte dos municípios brasileiros contarem com escolas, professores, estrutura e mesmo assim continuarem enfrentando baixos índices de aprendizagem, ela insiste que a formação de professores precisa ser revista, o que impõe formar melhores docentes, tornar a profissão mais atraente e investir para que o tempo de atividade fora da sala de aula – previsto em lei – seja aproveitado de forma colaborativa para que bons planos de aula sejam preparados. "É preciso seguir protocolos, como em medicina. Nenhum professor deveria entrar em sala sem um plano de aula", reforça.

Outro alerta é que as altas expectativas devem ser impostas sobre todos os alunos e não apenas sobre os "bons". "Não podemos criar profecias autorrealizadas. Todos os alunos precisam ser apoiados para ter bom desempenho."

Campeão estadual do Enem aposta em ensino integral

Os alunos do Positivo Ângelo Sampaio têm 50 horas de aula por semana e contam com tutores para tirar dúvidas e fazer as tarefas também na escola
Os alunos do Positivo Ângelo Sampaio têm 50 horas de aula por semana e contam com tutores para tirar dúvidas e fazer as tarefas também na escola | Foto: Divulgação



O Colégio Positivo/Ensino Médio/Sede, mais conhecido em Curitiba como Positivo Ângelo Sampaio, em alusão ao endereço da escola, é o mais bem posicionado no Enem no Paraná e demais Estados da região Sul. A estratégia para alcançar o índice, de acordo com o diretor geral Celso Maurício Hartmann, é a aposta na educação integral, como foi proposto na reforma do Ensino Médio para escolas públicas brasileiras.

Os alunos têm 50 horas de aula por semana e, além disso, contam com presença de tutores para tirar dúvidas e fazer as tarefas no período em que não estão em aula. "Tudo é feito na escola, o que evita as distrações mais comuns em casa", diz.

Segundo Hartmann, adolescentes ganham autonomia quando chegam ao Ensino Médio, mas precisam ser acompanhados para não se atrapalharem. "Defendemos a autonomia assistida, com orientação e direcionamento", explica.

O apoio em tempo integral colabora na redução de dúvidas e ajuda a criar o hábito de estudo. "Quem estuda todos os dias não deixa os conteúdos acumularem para a véspera das provas. A aprendizagem é mais eficiente e isso reflete no resultado do Enem."

mockup