Estudante é libertário por natureza
Um mergulho nos arquivos da FOLHA de 1968 revela que Londrina não foi diretamente marcada pelos eventos do célebre ano. Não houve protestos de rua ou atos individuais notórios. A preocupação com o que se passava no mundo, contudo, pode ser constatada no grande número de manchetes internacionais - algo raro na imprensa atual: ''Conversações iniciais de paz têm Paris como sede'' (4 de maio); ''Acordo Hanoi-EUA representa vitória russa contra Pequim'' (5 de maio); ''Estudantes não atendem De Gaulle e se apoderam do Centro de Paris'' (8 de maio).
A memória daquele ano também é viva entre personagens que saíram daqui para viver experiências emblemáticas da luta contra o regime militar, como o professor Alcides Carvalho. Aos 24 anos, ele participava do 30º Congresso da União Nacional de Estudantes (UNE), realizado num sítio de Ibiúna (SP) em outubro de 1968, quando a polícia apareceu para prender mais de 900 participantes - ele incluído.
Enquanto o congresso anterior fora realizado abertamente, num hotel carioca, o trigésimo foi organizado clandestinamente. As instruções eram passadas por meio de códigos e senhas. Estudantes tiveram que viajar para São Paulo por caminhos dissimulados, a pretexto de participar de um piquenique, e passar noites ao relento em matas fechadas até serem levados ao local do evento. ''A organização cavou degraus no chão, construiu uma barraca enorme e despistou tudo com grama e galhos. Éramos uns 850 estudantes passando dias e dias em situação precária. Nos sentíamos como guerrilheiros se preparando para o pior'', lembra Carvalho.
Segundo ele, havia duas correntes entre os acadêmicos: a que defendia a idéia de que a revolução se faria através da cultura e mudança de mentalidade do povo, e a que só acreditava na derrubada do golpe militar através das armas. ''Eu pertencia à primeira, e parecia ser a linha que iria vencer'', lembra. Entre os representantes do outro ideário, estava ninguém menos que o ex-ministro da Casa Civil do governo Lula e um dos principais nomes do escândalo do Mensalão, José Dirceu. ''Me lembro dele com uma capa enorme, de barba, jeito esnobe. Não se integrava muito'', comenta.
Antes que pudessem eleger seu novo presidente, os membros da UNE foram surpreendidos por cerca de 3 mil soldados fortemente armados. Carvalho conta como eles descobriram o ''lugar secreto'': ''Estávamos passando certa fome e uma caminhonete foi buscar mantimentos. Compraram todos os pães das padarias da região. Causaram desconfiança, claro.'' Na prisão, os jovens deram continuidade ao congresso, passando papéis com teses através das janelas. O evento continuaria, ainda clandestinamente, em... Londrina.
''Foi no final de outubro, na Diana (dona de um prostíbulo na antiga zona do Baixo Meretrício). Reunimos umas 300 pessoas'', recorda. O evento seria finalizado em Curitiba, onde, de acordo com Carvalho, mais uma vez foi reprimido por forças militares. Em dezembro, viria o Ato Inconstitucional nº 5 (AI-5), para enterrar o sonho da revolução.
Mesmo assim, Carvalho revisa a história com otimismo. ''O estudante é um libertário por natureza, não tem tantas amarras, é jovem, está num momento interessante de revolução. Dizem que os estudantes estão cada vez piores, mas não vejo assim. Eu os vejo cada vez mais críticos'', afirma.
Para ele, a destituição do reitor da Universidade de Brasília (UnB), uma conquista dos acadêmicos, é sinal de que a organização continua sendo um caminho possível para revolucionar.
''A força está na organização popular. O problema é que em todos esses anos não se formaram novas lideranças, porque foi um tempo em que você não podia mais pensar.'' Se ele acredita que o País voltará a se mobilizar um dia? ''Com todas as minhas forças. Ainda que demore.'' (V.N.)





