Em 2002 Arlindo Ventura, 35 anos, mais conhecido como Magrão, realizou um sonho. Ele adquiriu o bar O Peixe, que funcionava desde a década de 70. Transformou o local no conhecido OTorto Bar, que presta homenagem a Mané Garrincha.
  O proprietário é bom de papo. Basta sentar no bar que assunto não falta. Magrão trabalha em bares desde os 14 anos, quando ainda morava em São Paulo. Em 1989 mudou-se para Curitiba e atuou como garçom em diversos estabelecimentos.
  Quando comprou o OTorto chegou a dormir no chão do local. Hoje possui casa própria e o movimento do bar cresce sempre. Ele chegou a trazer para o Brasil o filho sueco de garrincha, Ulf Lindberg, fato que chamou a atenção da imprensa nacional.
  Acompanhe a conversa que a FOLHA teve com ele sobre a grande paixão por Garrincha e as famosas histórias do bar.

FOLHA: Algum fato inusitado já aconteceu no OTorto?
  MAGRÃO: Esses dias estava conversando com o pessoal no bar e entrou um negócio voando. Era um passarinho que ficou no ventilador e não achava a saída. Depois foi exatamente no quadro principal do Garrincha e sentou lá. Garrincha é o nome de um pássaro alegre cor de terra. Ele tinha um peito amarelo e uns 15 centímetros. Era a coisa mais linda do mundo. Ficou sentado uns 20 segundos. Ele podia sentar em qualquer lugar, mas foi bem no quadro principal.

FOLHA: Você trabalha com quem aqui?
  MAGRÃO: Trabalho sozinho durante a semana e no final de semana tenho alguns ajudantes.

FOLHA: Quantas pessoas circulam no bar?
  MAGRÃO: Uma média de 150 pessoas. O bar tem capacidade para 25, 30, mas se estiver chovendo chega a concentrar 60. É um público bem diversificado. Tanto no meio social quanto profissional. Costumo dizer que é do gari ao executivo. São de todas as idades. Não tem uma tribo só. Na sexta já chegou a ter 200 pessoas. E todos se integram perfeitamente. Para preservar o ambiente, pois esta é uma região residencial, fecho 0h30. Prevalece o bom senso. Tem que respeitar a vizinhança. Eles sabem que eu fecho o bar mesmo tendo potencial pra ficar até mais tempo.

FOLHA: Por que homenagear Garrincha?
  MAGRÃO: Quando vi a figura do jogador pela primeira vez foi por meio das entrevistas e matérias na morte dele, em 1983. Ele era muito simples. Tinha infinitas qualidades. A simplicidade dele me ganhou. Acabei virando um rato de sebo vasculhando tudo sobre o Garrincha. Eu fazia exposições em espaços públicos antes de ter o bar. O Garrincha é fantástico.

FOLHA: Qual o gol inesquecível do jogador?
  MAGRÃO: Tem vários, mas o maior destaque foi contra a Inglaterra, na Copa de 1962. Ele chutou de fora da área. Inesquecível. Tem outro feito na Copa de 1966 contra a Bulgária. A bola fez uma curva e entrou. Mas este já era o tempo decadente do Garrincha. Costumo dizer que o auge foi entre 1953, no Botafogo, e 1962, já na Seleção Brasileira. Depois disso teve muitos contratos ruins.

FOLHA: Quantos quadros você possui do Garrincha?
  MAGRÃO: São 250. E tem mais coisa guardada. Mas aqui não tem espaço.

FOLHA: Algum grande fã do Garrincha de outra cidade já conheceu o bar?
  MAGRÃO: No jogo de sábado do Coritiba contra o Botafogo, uns 40 torcedores do time carioca vieram comemorar a vitória aqui no bar. Saíram daqui satisfeitos querendo levar o bar para o Rio de Janeiro. Todo dia vem uma pessoa diferente.

FOLHA: Você pretendo montar outro bar?
  MAGRÃO: Eu comprei a loja da frente pois se fazem um pagodão ali estou perdido. Tenho a intenção de montar um sebo de disco e livro. Seria para alugar para este segmento. Teria que funcionar no mesmo horário do bar. Tenho certeza que vai dar certo. O cara está aqui tomando uma cerveja e vai lá ver um livro ou disco. Não tenho medo da concorrência de bares. Fico feliz quando abre um novo estabelecimento. Quando eu cheguei só tinha um bar na região. Hoje tem oito. Mas sempre o pessoal passa aqui antes pra tomar alguma coisa.

FOLHA: Qual a especialidade culinária do OTorto?
  MAGRÃO: Tem empadinha de palmito e frango, e conservas simples. Mas o que vende mesmo é uma receita da minha avó que não mostro pra ninguém. É o bolinho de carne. Tenho amigos que querem aprender, mas não tem conversa. A base da massa misturada com a carne é feita 24 horas antes. Dei uma aperfeiçoada nos temperos. Vende muito.

  FOLHA: A Lei Seca diminuiu o movimento?
  MAGRÃO: Diminuiu uns 30%. Tem que ter bom senso. Se o motorista toma uma cerveja e está dirigindo bem, não tem motivo para prender. Mas se está fazendo bobeira concordo em prender na hora.

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