Mais de 500 anos após o ''descobrimento'' do Brasil, e a possibilidade de conhecer uma aldeia indígena continua aguçando a curiosidade de muita gente. Sinal de que pouco nos aproximamos ''dos primeiros donos da casa''. Na semana passada, um grupo de mais de 70 alunos do Colégio Martinus, de Curtiba visitou a Aldeia Araçaí, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, habitada por índios guarani mybia. Oportunidade aproveitada até o último instante pelos jovens, que há alguns meses, pesquisam os costumes e hábitos dos povos indígenas.
No dia do passeio, muita expectativa de quem chegou e também de quem recebeu os visitantes. Apesar de que houve moradores de Araçaí que reagiram com algum receio. Como um indiozinho, de um pouco mais de três anos, que correu até a mata para fugir daquela multidão que adentrava a aldeia. Preferiu ficar bem escondidinho atrás de uma árvore e assistir a tudo de longe mesmo. Aqueles que permitiram mais aproximação ficaram gravados na memória dos estudantes.
''Foi surpreendente ver como a vida deles é simples. As casas são feitas com materiais da natureza e os artesanatos são muito criativos. A comida é toda preparada por eles, não é tão fácil quanto é para nós que só colocamos no microondas e pronto. O trabalho aqui é pesado'', comparou Natália Malaquini, de 15 anos. ''As crianças são muito bonitas. Conversamos com algumas delas. Mas quando pedimos para tirar foto, teve algumas que não aceitaram. Alguns índios são mais abertos e outros mais fechados'', disse Carolina Bacila, de 14 anos.
As alunas participam do projeto ''Beleza Ameaçada'', realizado pela ONG Aldeia Brasil em parceria com o Colégio Martinus. A proposta é promover o intercâmbio cultural e fazer um estudo social e antropológico, segundo o professor de educação cristã do Martinus, Everaldo Borges, que é o coordenador do projeto. ''Além de conhecer uma cultura diferente, queremos resgatar o conceito de beleza do índio e valores como respeito, organização e generosidade'', explicou o professor.
Cientes das necessidades da aldeia, que possui 76 moradores - 36 são crianças - os alunos realizaram uma campanha para arrecadar alimentos e material escolar. Foram entregues à comunidade doações de azeite, fubá, trigo e sabão, principalmente. ''Não queremos que nosso trabalho seja focado no assistencialismo, mas também não podemos fugir disso. A gente quer buscar meios que dêem visibilidade às aldeias, além de incentivar a sustentabilidade das comunidades'', esclareceu a vice-diretora da ONG Aldeia Brasil, Sandra Mara Volf Pedro, de 25 anos, considerada a primeira jornalista índia do Brasil. A entidade desenvolve projetos com cerca de 12 tribos no Paraná e em São Paulo.
Na Aldeia Araçaí, fundada há sete anos, funciona a Escola Estadual Biarandu, onde estudam 32 crianças, em sistema bilíngue (já que o guarani mibya é a língua corrente na aldeia). A idéia é que os estudantes do Colégio Martinus desenvolvam novos trabalhos em benefício dos moradores, nos próximos cinco anos, como cursos profissionalizantes e de informática. ''Após a primeira fase de interação social entre os alunos e os índios, começamos a executar novos projetos, sempre norteados pelas necesidades dos moradores, como a construção de um portal que identifique a área da aldeia'', completou o professor Everaldo Borges.

mockup