Estrangeiros, graças a Deus
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Thiago Alonso <br> Equipe da Folha 
Hoje, o disco em vinil do clássico Velvet Underground & Nico, dos norte-americanos do Velvet Underground, vende mais do que quando foi lançado originalmente, em 1967. Se a transgressão e as distorções da obra-prima, mesclando letras sobre drogas pesadas, como a heroína, e sadomasoquismo, fizeram o disco encalhar nas prateleiras no período do lançamento, hoje ele é disputado por colecionadores ou novos entusiastas.
Por uma bagatela de R$ 180, qualquer um pode ter um vinil igualzinho ao original da época, com a capa imaginada pelo artista plástico Andy Warhol (a casca da famosa banana da capa pode ser destacada, fazendo com que apareça uma banana rosa por baixo) e tudo o que se tem direito. Basta importar.
Colecionador, fã de música e ex-proprietário de uma loja de discos, o curitibano Horácio De Bonis é quase como um realizador de sonhos de quem não quer só a música (que hoje pode ser encontrada fácil em qualquer blog perto de você) e sim deseja mais: quer capa, quer encarte, quer o objeto, quer a qualidade de som, quer raridade, quer exclusividade.
Importador de CDs e LPs desde quando tinha uma loja em Curitiba, entre os idos de 1991 e 1999, De Bonis traz do exterior qualquer disco que seus clientes desejam: vinis raros, obras de artistas desconhecidos, relançamentos, edições de luxo, CDs que não chegaram às lojas brasileiras e que nunca vão chegar. O comércio é praticamente profissão e conta com clientes fiéis. Tem gente que toda semana aparece no apartamento-loja bacana que De Bonis mantém no Centro da Capital e sempre leva alguma coisa.
A importação de música em tempos de Myspace, Torrent, blogs, download o mundo do tudo muito rápido, fácil e sem custos pode parecer um mercado mais próximo da forca do que do êxito. Não é o que diz De Bonis. Enquanto o MP3 matou a venda de CDs nas lojas, o disco de vinil continua em alta.
Segundo De Bonis, o motivo é que muitas pessoas querem ter o disco físico do artista preferido, independente de quanto tenha que desembolsar para isso. Muita gente pode achar um absurdo pagar R$ 180 em um vinil, mas tem gente que não se importa, diz. O que importa realmente é ter a obra em mãos.
O hábito dos colecionadores - porque, sim, os compradores de discos importados são sempre colecionadores, mesmo que por motivos diferentes - faz com que o mercado se expanda cada vez mais. Se no início De Bonis trazia do exterior mais CDs, hoje os discos de vinil representam em torno de 20% de suas importações. Por semana, são, em média, 200 novos discos, entre CDs e LPs, em preços médios de R$ 70 ou R$ 80. Mas existem materiais mais caros. Uma caixa com sete vinis da banda islandesa Sigur Rós custa R$ 700 a quem quiser importá-la.
A explicação para o aumento é a maior oferta de material. Muita coisa está sendo relançada. Há também artistas novos lançando em CD e LP. Há alguns anos, não se poderia nem imaginar isso, comenta o importador. Um exemplo é um caixa da banda britânica de trip hop Portishead. O último disco da banda, Third, chegou às lojas estrangeiras em edição especial, com vinis, singles e um pen-drive em forma de P (o mesmo que está na capa) trazendo algumas canções. É material como este, exclusivo, que atrai os amantes não só da música, mas também da forma. O conjunto todo custa R$ 220. Todas as unidades trazidas por De Bonis foram vendidas. E faltou.
Outro fator que faz com que o público procure a importação, além do fato óbvio de não encontrar esse material no Brasil, está na frieza das lojas. O público que consome esta música diferente está carente de locais. Não há mais um atendimento especializado e não encontra discos que não estão na mídia, comenta.
O que De Bonis faz acaba se tornando um atendimento personalizado, com dicas de lançamentos e qualidade da música é um consultor, como se define. Tem clientes que agradecem tanto pelo disco que extrapola a coisa do comércio. Vira afeto.
Curiosidades:
- Entre os importados, os estilos mais pedidos em vinil são rock e jazz.
- Em se tratando de CDs, além de jazz e rock, há muito importação de música eletrônica e world music.
- O Velvet Underground está entra as bandas com discos mais improtados.
SERVIÇO
- Quem se interessou e quer importar discos, Horácio De Bonis pode ser contactado pelo e-mail [email protected].


