Amanhece. É o dia 20 de agosto de 1929. Uma neblina fria espalha-se pelos vales de Ourinhos. Sem pressa, o grupo de funcionários da Companhia de Terras Norte do Paraná, capitaneado pelo jovem paulista filho de ingleses, George Craig Smith, prepara-se para o primeiro ato de uma investida histórica: o reconhecimento pioneiro das terras roxas ainda virgens do norte do Paraná.
Varando a neblina, o Ford 29 parte em busca do desconhecido e serpenteia pela floresta de imensas árvores - que espanta e extasia. À tardezinha do mesmo dia, chegam à Colônia Militar de Jatay (atual Jataizinho), ondem dormem no rancho de palmitos construído por um escocês. Naquela cidade, compram uma tropa de burros de carga e montaria para prosseguir até as terras adquiridas pela Companhia, situadas a 22km além da margem esquerda do majestoso rio Tibagi.
A antiga colônia militar de Jatay é a última localidade alcançada pela estrada. Do rio em diante, é necessária a abertura de picada no meio da floresta. O grupo contrata um índio para servir de guia - e todos ficam espantados ao vê-lo conversar mansamente com os animais, chamando a cada um pelo nome, e ser prontamente obedecido.
No dia 21 pela manhã, os desbravadores deixam a antiga colônia de Jatay e começam a atravessar o rio. Na ausência de ponte ou balsa, os animais vão a nado, um por um. Os homens seguem de canoa: enquanto uns remam, outros seguram os cabestros dos burros. Após várias - e perigosas - travessias, os desbravadores, seus animais e mantimentos chegam na outra margem.
A partir dali, começa a dura caminhada até o local denominado Patrimônio Três Bocas, atual Londrina, onde começavam os 515 mil alqueires comprados pela companhia - sendo 450 mil junto ao governo do Paraná, por 8.712 contos de réis. A viagem foi feita com grande sacrifício, em marcha lenta, por um caminho escuro, barrento e cheio de tocos e buracos.
Durante a expedição, um imprevisto: assustados com algum barulho, os animais fogem assustados para a floresta. Os ingleses e demais integrantes do grupo ficam apavorados ao se verem subitamente sem os equipamentos e víveres. O índio que servia de guia, porém, lhes acalma e entra sozinho no meio do mato. Em poucos minutos volta com um dos burros. Calmamente retorna ao mato, e em poucos instantes volta com outro animal. Após diversas incursões, senhor de si e da situação, o índio consegue reunir de volta toda a tropa perdida. O grupo se espanta ainda mais com a inteligência elegante do indígena que permitiu a chegada da companhia às suas terras.
Ao final do dia, extenuados, os desbravadores montam acampamento. É o agrimensor russo, Alexandre Rasgulaeff, que, orgulhosamente, após fazer seus cálculos, finca o primeiro marco de madeira e declara: ‘‘chegamos, aqui começam as terras da Companhia de Terras Norte do Paranᒒ.
O caminho percorrido entre o rio Tibagi e o primeiro acampamento ficou conhecido como ‘‘Estrada dos Pioneiros’’ e hoje liga o bairro de Santa Paula, em Ibiporã, e o início da avenida Celso Garcia Cid, na Zona Leste de Londrina. O trecho corresponde ao espigão da microbacia do córrego Água das Pedras. O local do acampamento pioneiro é o atual ‘‘Marco Zero’’, que restou preservado em meio a um pequeno remanescente de mata nativa localizado a 800 metros da rodoviária de Londrina.

SERVIÇO
Conheça mais sobre a história da cidade na ‘‘Sala Londrina’’ da Biblioteca Municipal.

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