ESTILO DE VIDA - Elegância depende de cultura
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de novembro de 2005
Leandro Quintanilha<br> Agência Estado 
Todo mundo que se pretende chiquérrimo tem um problema: no português culto, o certo é ''chiquíssimo''. Quinze especialistas em áreas tão diversas como moda e museologia, cinema e boas maneiras, literatura e turismo, reuniram-se para escrever um guia cultural para a elegância. Chique, como ensinam os autores de ''Cultura & Elegância'' (Contexto, 240 págs.), é ser superlativo no conhecimento.
''Vivemos num mundo muito competitivo, segmentado, e ser elegante requer cultura geral'', afirma o historiador Jaime Pinsky, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Campinas (Unicamp), organizador do livro e autor do capítulo sobre os museus mais importantes do mundo. A idéia do livro nasceu numa viagem à Alemanha, onde Pinsky se encantou com o calhamaço ''Bildung'' (''Ilustração''), de Dietrich Schwanitz Eichborn. A obra era um grande resumo de tudo o que se precisa ler, ouvir, ver, conhecer e saber para ser elegante com cê maiúsculo. De cultura.
O historiador pensou em lançá-lo no Brasil, mas era um livro muito denso, para iniciados. Decidiu então reunir um time de experts brasileiros para desenvolver um manual inspirado no alemão. Só que mais simples, leve e acessível. Os quinze especialistas recrutados, gente como o escritor Moacyr Scliar e a chef de cozinha Mara Salles, relacionam o que há de mais admirável nas artes, na moda, na culinária, na enologia (a ciência dos vinhos) e no comportamento para o conhecimento e a inspiração do leitor.
''Gosto se educa'', diz Pinsky, ''não se respeita simplesmente'', prossegue. Para ele, muita gente diz não gostar de coisas que, na verdade, desconhece. ''No livro, não ditamos o que é importante explicamos por que cada item relacionado é considerado fundamental.'' Só quem conhece e entende pode não gostar com elegância.
A psicanalista Eleonora Mendes Caldeira, convidada para redigir a apresentação do livro, define elegância como a ''amabilidade necessária à convivência humana''. E completa: ''Precisamos de elegância porque precisamos do outro''. Ela ensina que elegância vem do latim eligere, que significa ''eleger'', ''escolher''. Elegância é, portanto, saber escolher. E só escolhe bem quem conhece as opções.
O estilista e professor de história da indumentária, João Braga, autor do capítulo sobre a arte de se vestir, diz que elegância é a capacidade de acessar informações. Para ele, só com conhecimento e sensibilidade, é possível legitimar o próprio estilo, ainda que contrarie as normas vigentes. Braga explica que os estilistas são, como o próprio termo sugere, inventores de estilos. Moda, simplifica, é quando um estilo faz sucesso e pega. Em outras palavras, moda é a elegância de alguém que se quer copiar. Como diria o escritor inglês Oscar Wilde, os charmosos dominarão o mundo. E não há charme na arrogância.
Elegância é essência, como define a professora de etiqueta Célia Leão. A beleza vazia das aparências é hoje obsoleta. ''Agora, a melhor bolsa cara é ser.'' Ser o quê? ''Simples, culto, sensível, informado e íntegro'', resume. Você pode até cometer uma gafe de vez em quando: ''Será sempre perdoado em qualquer deslize, se nas atitudes gerais você é louvável''.
Jaime Pinsky diz que a elegância é uma questão de humanidade. ''Se a cultura é o que nos diferencia dos animais, seremos mais humanos quanto mais formos cultos.'' Então, vamos recapitular: ser elegante é ser culto e ser culto é ser mais humano. Viu só? Ser humano é chiquíssimo.


