É visível a preservação de áreas verdes em Curitiba, medida prevista dentro do plano-diretor da cidade. Não há um habitante que no seu trajeto até o trabalho, por exemplo, não desfrute da agradável paisagem combinada com árvores e parques distribuídos pelo município. Mas o cenário rural, caracterizado pelas pequenas propriedades com a prática da agricultura familiar, cheias de canteiros onde brotam variedades de hortaliças, além de cavalos, vacas e galinhas compondo um quadro bucólico, é cada vez mais raro dentro de Curitiba. Mas ele existe numa cidade, que segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é 100% urbana.
  Essas áreas permanecem sob os cuidados de famílias descendentes de poloneses, alemães e italianos, em poucos bairros, resistindo ao crescimento acelerado da cidade. ‘‘Muitas propriedades aqui perto já foram vendidas e viraram loteamentos. A urbanização está chegando perto de nós. Quando éramos pequenas, havia mata fechada mesmo, com pinheiros que uma pessoa só não abraçava. Nos preocupa um pouco essas mudanças, mas nem passa pela nossa cabeça a possibilidade de sair daqui’’, disse a agricultora Jocélia Felibrante, de 36 anos, que mora com a mãe, outras três irmãs e o sobrinho, Giovani, de 10 anos, numa chácara de um
alqueire e meio, na Colônia Augusta, Cidade Industrial (CIC).
  As cinco mulheres, sempre sorridentes, mantém a propriedade onde produzem hortaliças da época, leguminosas e ovos caipira, fonte de renda da família. Os produtos são vendidos diretamente na propriedade para comerciantes das feiras livres de Curitiba. ‘‘Não nos sobra muito tempo. Tem gente que vem aqui e acha lindo o sítio, mas dá trabalho manter tudo isso. Acordamos cedo, antes das 6h, para cuidar da lavoura e ainda tem os afazeres da casa. Vamos a cidade, uma ou duas vezes por mês, para comprar algumas coisas, sementes e pagar contas’’, disse outra irmã, Rose Felibrante, 40 anos, acrescentando que a família gosta de se reunir na cozinha
para fazer pastéis de requeijão.
  Dona Ana, nem de longe aparenta ser uma agricultora de 73 anos. É forte e sempre disposta para o trabalho. A produção de ovos caipira é função exclusiva da matriarca que mostra com orgulho as cestas de ovos que o galinheiro rende, por dia. ‘‘Estes ovos aqui dá gosto de comer’’, disparou dona Ana, que passou a vida inteira na roça e valoriza tudo que existe neste universo. ‘‘Nosso pai morreu quando a gente era pequena, então tocamos
a chácara somente com a mãe.
O marido da Rose nos ajuda e teve um tempo
que um tio nosso também ficou aqui. Nossa
vida é a roça, fora daqui seria difícil
conseguir emprego porque só estudamos
até a 4ª série’’, explica Jocélia.
  A caçula Ana Lúcia, 33 anos, acredita que a aproximação com a cidade já modificou o estilo de vida da família. ‘‘Somos um pouco urbanas, eu acho, porque a gente já convive com a cidade, aproveita o comércio perto, anda de ônibus. Aqui em casa veio a luz e o telefone’’, raciocina ela. ‘‘A parte ruim da cidade é a violência, roubo, barulho, as pessoas sem trabalho. No campo temos a tranqüilidade, água no poço, comida fresquinha e trabalho. Na nossa infância, estudamos na escola e depois a gente ajudava na roça, onde continuamos até hoje. Essa é a nossa
vida’’, compara Ana Lúcia.
  Próximo da propriedade das Felibrante,
fica a chácara de Alfredo Jablonski, 65 anos. O agricultor mora no local, há 50 anos, e enxerga um outro benefício da proximidade com a cidade. ‘‘As pessoas vêm até aqui para comprar as verduras e o mercado traz nossa feira do mês em casa. Isso é uma facilidade. Há 30, 40 anos, a gente tinha que ir de carroça até o centro de Curitiba para vender as hortaliças na feira do Batel e Dom Pedro II. A gente saía às 2 horas da madrugada para chegar lᒒ, recorda ele, que levanta às 5 horas e trabalha nas plantações de mandioca, couve-flor, vagem e tomate até o sol se pôr. No final-de-semana
é a hora do descanso, de encontrar os filhos
e ir para a igreja.
  ‘‘O melhor da vida na roça é ver a planta crescer bonita, dá um ânimo na gente. Mesmo que o preço da venda não seja bom’’, pondera Jablonski, observado pela esposa, Ana Anézia, 64 anos. A senhora, cozinheira de mão cheia, fala com gosto do bolo de mandioca que prepara e da broa escura assada no fogão à lenha. ‘‘Posso fazer fumaça aqui que ninguém vai reclamar. Nunca me acostumaria a morar na cidade, no meio daqueles prédios. Na roça temos tranquilidade, o canto dos pássaros, verdura colhida na hora. Gosto desse estilo de vida, me considero uma mulher do campo. Como dizem, sou uma caipirona mesmo’’, brinca dona Ana Anézia, que não dispensa
um passeio pelas lojas de roupa do centro
de Curitiba.



SAIBA MAIS


A Curitiba rural em números

Bairros com maiores concentrações de áreas rurais:
- Umbará
- Colônia Augusta
- Santa Felicidade
- Lamenha Pequena


Número de produtores:
- Hortaliças: 103
- Lavouras anuais: 50
- Frutas: 24


Principais culturas:
- Abóbora, alface, beterraba, cenoura, couve-flor, feijão vagem, pepino, pimentão, rabanete, salsa, repolho, tomate, uva comum de mesa


Área de plantio:
- Hortaliças: 159 ha
- Lavouras anuais: 400 ha
- Frutas: 14 ha


Criações:
- Total de produtores: 28
- Atividades: bovinocultura, caprinocultura, cunicultura, avicultura, ovinocultura, piscicultura, suinocultura


OBS: A Secretaria pontua que os dados acima são empíricos, baseados no serviço de Assistência Técnica mantido pela Prefeitura, já que o órgão não dispõe de um serviço de acompanhamento de estatística de produção.


Fonte: Secretaria Municipal de Abastecimento (SMAB)

mockup