Há dois dias somente víamos e sentíamos a Antártica. Não tínhamos tocado nossos pés no continente. Agora longe do navio, sem barulho de motores e equipamentos, percebi algo que me marcou profundamente nessa viagem: o silêncio. ''É um silêncio tão profundo, mas tão profundo que temos a impressão que estamos conversando com Deus'', define o doutor Metry Bacila, pesquisador paranaense pioneiro nas pesquisas antárticas.
A Estação Brasileira Antártica Comandante Ferraz está localizada na Baía do Almirantado, Ilha Rei George, arquipélago das Ilhas Schetlands do Sul. Nas cercanias da estação milhares de ossadas de baleia se misturam ao gelo, formações rochosas e pinguins. Essas cicatrizes da destruição da fauna marinha remontam do início do século XX, tempo em que o local era uma estação britânica de caça às baleias.
O cenário é tão impressionante que no ano de 1972, quando o oceanógrafo francês Jacques Cousteau visitou a Ilha Rei George fez questão de montar um esqueleto completo de uma baleia-azul. O monumento foi uma forma de denunciar e chamar a atenção para a matança ocorrida décadas atrás. A maior atração turística das Ilhas Schetlands do Sul fica a menos de 200 metros da Estação Brasileira, que foi montada ao lado do antigo e desativado ponto britânico.
Desde 2007 a estação passa por reformas e modernizações, hoje é considerada modelo ambiental no tratamento dos resíduos. O objetivo é gerar o menor impacto possível. Durante o inverno Ferraz é habitada por até 30 pessoas - 15 militares do grupo de apoio e até 15 pesquisadores. No verão o número sobe para 60 integrantes. Todos ficam confortavelmente alojados. Academia, salas de estar, biblioteca e boa comida minimizam a distância de casa e o trabalho árduo.
Pesquisadores elogiam a estrutura dos laboratórios, bem como as condições de apoio. Tratores, veículos especiais para neve e embarcações garantem o suporte logístico. ''O país que está realmente pontificando na pesquisa Antártica no continente latino-americano é o Brasil, não há dúvida nenhuma'', garante o doutor Metry Bacila. No verão ainda recebem apoio de dois helicópteros embarcados no navio Ary Rongel. Há locais, como o refúgio permanente brasileiro Emilio Goeldi, na Ilha Elefante, que só pode ser acessado por meio de aeronaves.
No comando de Ferraz está o Capitão de Fragata Carlos Alberto Machado Junior, 42 anos. Depois de três tentativas, conseguiu vir para a Antártica, e demonstra orgulho e preparação para chefiar 60 pessoas num ambiente de alto grau de complexidade. Machado destoa dos demais ao revelar seu maior encantamento no continente gelado: ''Isso aqui é como se fosse o princípio de tudo, onde todos são solidários. Essa é a maior característica dos povos aqui, todos se ajudam''. (S.R.)

mockup