Essas mal traçadas linhas
Essas mal traçadas linhas Iara Lessa Polêmicas, ousadas, cruéis, malvadas, adúlteras, bruxas, enfim, um número enorme de personagens femininas fazem a cabeça dos leitores. Para quem curte o gênero religioso-histórico-antropológico, a Bíblia é um bom começo. No livro santo está Eva, a primeira mulher. Criada a partir da costela de Adão, Eva acabou sendo banida com o seu par do paraíso depois de provar o fruto da árvore da verdade. Eva também é considera a primeira vilã da literatura ocidental. Sobre Eva, São Paulo foi taxativo em uma de suas missivas: O primeiro a ser criado foi Adão, e não Eva. E não foi Adão quem se deixou iludir, e sim a mulher. Ainda no Antigo Testamento, encontramos Dalila, que esperou que Sansão pegasse no sono e mandou passar a tesoura nos cabelos do rapaz. Considerada uma traidora, Dalila jamais foi vista como uma filistéia que subjugou Sansão, um notório inimigo dos filisteus. Embora a Bíblia esteja centrada nos homens (só para se ter uma idéia, cerca de 1.400 pessoas são citadas na Bíblia, mas apenas 115 são mulheres), uma de suas personagens mais polêmicas é Maria, mãe de Jesus. Grávida e virgem. O extremo paradoxo, que recebeu inclusive nome próprio: dogma. Deixando de lado as mulheres sagradas. Na galeria das personagens imortalizadas pela pena encontramos Beatriz, amada de Dante. Beatriz, que viu Dante apenas três vezes em toda a vida, foi a musa do poeta italiano. No livro Divina Comédia, em que Dante destilou todo seu veneno e talento contra seus desafetos, Beatriz é uma das poucas que se salvam e ocupa o paraíso. Na esteira do amor platônico encontramos Dom Quixote, fenomenal personagem criado por Miguel de Cervantes. Este louco visionário luta contra seus fantasmas mais íntimos para salvar sua musa Dulcinéia. Mulher, teu nome também é escândalo. Principalmente se o nome for Madame Bovary, criada pela maliciosa pena de Flaubert. Livro ainda proibido em algumas partes do mundo. Adúltera de carteirinha assinada e reconhecida é mesmo Capitu, amada de Bentinho em Dom Casmurro, do brasileiro Machado de Assis. Discreta, extremamente discreta, em seus atos extra-conjugais, Capitu faz com que Bentinho viva seu pior inferno, a dúvida da traição e, pior, da paternidade do filho. Só pra citar mais um escritor brasileiro, Jorge Amado, nosso eterno candidato ao prêmio Nobel de Literatura, transformou Gabriela Cravo e Canela em uma espécie de imagem permanente da baiana fogosa. O livro rendeu duas versões de novela e duas produções cinematográficas.





