ESPELHO, ESPELHO MEU - Pouco a pouco, homens buscam a beleza
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sábado, 16 de setembro de 2006
Marta Ortega<br> Reportagem Local 
O que nas metrópoles nos anos 90 estourou como um fenômeno de comportamento, ainda é um movimento tímido em cidades médias como Londrina. Os chamados metrossexuais, homens que se interessam pelas últimas tendências da moda, preocupam-se em cuidar da aparência e para isso não medem esforços, enfrentando bisturis, agulhas e sessões de tratamentos para pele e corpo, investindo nisso boa parte de seus salários, não se assumem por aqui.
Mas nem por isso, representantes do sexo masculino deixam de se cuidar. Nas clínicas e salas de estética, os homens já engrossam a fila da clientela. Os cuidados ainda se restringem a tratamentos sem gastos exorbitantes, como nos grandes centros, mas aos poucos, eles vão assumindo a vaidade, deixando de lado o preconceito.
O termo ''metrossexual'' lançado pelo jornalista britânico Mark Simpson em 1994, vai além do simples narcisismo, e é usado para fazer referência ao homem que está perdendo a vergonha de ser vaidoso e de cuidar da aparência. Comportamento que no fim de 2003, foi combatido pelo termo ''retrossexual'', pelo mesmo Mark Simpson que define como ''retro'' o homem que gosta de ser macho e de realçar seu lado masculino, e de marcar uma oposição ao conceito ''metrossexual''.
Disputas à parte, a realidade é que, mesmo de forma tímida, muitos homens buscam cuidados especiais, em nome de uma melhor aparência e, principalmente, de uma melhor qualidade de vida. Cuidados antes buscados apenas por mulheres e que nem por isso, mexem com a masculinidade deles.
Eles ainda são minoria, mas cada vez mais especialistas na área de estética registram um aumento de clientes do sexo masculino em consultórios e clínicas. A maior parte começa a frequentar os locais levados pelas próprias esposas ou namoradas, que alertam sobre a necessidade dos cuidados com a pele e o corpo. Aos poucos, eles começam a utilizar os serviços e com os bons resultados, fazem disso um hábito.
Médico especializado em estética facial há cinco anos, Jenner Barion tem recebido homens na clínica que mantém há oito anos na cidade. Antes a clientela era apenas feminina. Há cinco anos ele vem atendendo homens de todas as idades, preocupados em manter uma boa aparência. Hoje, 20% da clientela na clínica é masculina. Boa parte dela, com idades entre 60 e 65 anos. ''O preconceito caiu em todas as idades. O que era reprimido antes, está mais tranquilo hoje, até mesmo pela febre na busca da juventude e da beleza''.
O curioso, segundo os especialistas, é que os homens são mais rigorosos no tratamento do que as mulheres. ''Eles já chegam ao consultório sabendo o que querem. Atenuar rugas, aplicar botox, afinar o nariz ou alongar o queixo'', procedimentos que hoje, podem ser feitos com produtos sem necessidade de cirurgia plástica.
Apesar da grande procura por tratamentos, os homens mantêm um certo cuidado em não deixar que as pessoas saibam dest interesse. ''Muitos não querem ser vistos em clínicas de estética. Ainda têm uma preocupação com os outros e não com eles''.
Por causa disso, uma sala reservada, com jornais e revistas especializadas em esporte, foi instalada só para eles. ''É um local onde os homens ficam mais à vontade e podem trocar informações com quem também se preocupa com a aparência sem nenhum tipo de preconceito''. Os horários também são especiais. ''A maioria trabalha e precisa de horários diferenciados para atendimento, além de não quererem ser vistos''.
Barion afirma que a vaidade está presente em todos os homens, mas que a maioria ainda enfrenta preconceito por parte de outras pessoas. ''Muitos amigos acabam ridicularizando os homens que se preocupam com o visual. O preconceito vem de fora e não deles''.
Mais do que se preocupar com a aparência, todo esse cuidado, segundo Barion, reflete no bem-estar e na qualidade de vida dos homens. ''Se você se sente bem, com uma boa aparência, sua auto-estima melhora e você vai se sentir mais seguro. Sentindo-se mais seguro, todo o relacionamento com outras pessoas melhora''.
A mesma opinião é compartilhada pela farmacêutica especializada em cosmetologia, Betânia Alves Pereira, que há dez anos trabalha no ramo da estética facial. A procura maior para tratamentos masculinos se restringia a adolescentes com problemas de acne, mas há três anos, homens de todas as idades passaram a buscar mais os serviços.
''Hoje, 40% dos meus clientes são homens (com namoradas ou mesmo casados) que fazem limpeza de pele, hidratação, e tratamentos mais profundos como peelings, liftings (tratamento com microcorrentes para atenuar rugas) e hidratações mais profundas. Muitos me pedem opinião sobre tratamentos mais específicos, como manipulação de produtos ácidos e até cirurgias de pálpebras''.
Betânia afirma que aos poucos, o preconceito vai diminuindo. ''Eles estão mais tranquilos para fazer os tratamentos. Sabem que a boa aparência ajuda na profissão e no relacionamento com as pessoas. E que isso não mexe com a virilidade deles. As mulheres gostam de ver os homens bem cuidados''.
Além da própria exigência em manter uma boa aparência, os homens enfrentam a pressão da sociedade. ''Hoje em dia a profissão e a sociedade exigem isso do homem. Estar bem vestido, bem cuidado e bem informado, são fatores fundamentais para o sucesso da pessoa, independente do sexo''.


