ESPAÇO ABERTO Ansiedade e depressão: sintomas acinzentados da pós-modernidade?
Nos dias atuais, as diferenças individuais têm sido bastante valorizadas, pois a variabilidade observada nas características dos indivíduos e da sociedade é uma marca fundamental para o desenvolvimento de um grupo social, comportamental e culturalmente rico. Apesar desta faceta positiva, as diferenças individuais tão valorizadas pela sociedade capitalista podem aprisionar, escravizar e tornar o homem refém dele próprio.
Será que existe sentimento pior do que aquele acarretado pela construção da própria prisão? Parece difícil responder a esta pergunta, pois já estamos tão adaptados e acostumados com a opressão, a desigualdade e a efêmera justiça, que assistimos gratuitamente nossa própria crucificação, sem ao menos discriminarmos corretamente nossos sentimentos perante a competitividade, correção e o poder do capital.
Será que, para o leitor, estes questionamentos estão fortes demais ou descontextualizados? Espero que não, pois nunca é tarde para abrir as algemas, desatar as correntes e correr rumo à liberdade. Liberdade não em seu sentido absoluto, mas sim o mínimo de liberdade de ser, pensar, estar e sentir da forma que lhe fizer melhor, o susurro do mais fraco. sem máscaras ou fantasias. Isto seria muito bom. Sério ou pode ser? Poder sentir prazer, amor, felicidade em altas doses, pinceladas por pequenas doses de ansiedade, medo, desamor, angústia... Espero que ainda possa ser, pois as tais diferenças individuais não decoram e mancham os nossos corações, acinzentando algo que poderia ser suave e rosé.
Sintomas como ansiedade e depressão são nada mais que reações do nosso corpo a um mundo pós-moderno pleno de diferenças, competitividade e metas egoístas, medíocres que visam manter o poder do mais forte e suprimir
E assim o ciclo vai: oprime e difere os homens, os homens são seduzidos por ele e se vendem a baixo custo, para chegar a não sei onde... Quando, muitas vezes, vê-se que este não é o melhor caminho para o porto seguro, já pode ser tarde, seu coração já pode ter se manchado e o que era luz, plenitude, calmaria se transforma em ansiedade por iminência do perigo ou em depressão oriunda da perda dos prazeres simples, de ser quem se quer e não quem se espera que seja... De ser quem se necessita e se ama e não quem vai alimentar uma sociedade alienada produtora de tensão, prisão e sofrimento.
Você ainda vai ser refém ou ainda é tempo de ser você?
Maira Cantarelli Baptistussi é professora de psicologia da Unipar e coordenadora do curso de pós-graduação Lato Sensu: Análise do Comportamento e a Terapia Comportamental na Unipar.





