Era possível juntar ouro com rastelo
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quarta-feira, 17 de junho de 1998
Lucinéia Parra 
O sonho de ficar rico com as lavouras de café foi o que motivou os imigrantes japoneses a se instalarem em Maringá (Norte). Cerca de 60 famílias chegaram no final da década de 40, durante a colonização. A maioria foi morar em sítios próximos, onde trabalhavam na colheita do café. Mas a história não registra um motivo específico para a preferência dos imigrantes por Maringá, que acabou se transformando em uma das maiores comunidades japonesas do Estado, atualmente com cerca de 3,5 mil famílias, ou 15 mil pessoas.
Alguns pioneiros afirmam que escolheram a cidade para morar porque a região prometia ser próspera e porque em outros municípios, como Londrina por exemplo, já havia muitas famílias e poucas oportunidades de trabalho.
A terra roxa e fértil e o planejamento elaborado pela Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP) também ajudaram na escolha. Mesmo não tendo experiência em plantio e colheita do café, os imigrantes queriam começar na atividade porque acreditavam que ficariam ricos rapidamente. O sonho dos japoneses era inspirado na propaganda sobre a fase de ouro do café no Brasil. Diziam que em três anos era possível juntar dinheiro com rastelo nos terreirões de café, afirma o empresário Kenji Ueta.
A fase de ouro do café de fato existiu, mas os japoneses não ficaram ricos em três anos. Ao contrário, muitas famílias tiveram que pagar para trabalhar porque não conseguiam acompanhar o ritmo dos brasileiros na colheita do café. Enquanto os trabalhadores brasileiros colhiam até 10 sacas por dia, os japoneses só conseguiam a metade, por causa da falta de jeito para a atividade. No final do mês, os imigrantes acabavam devendo para o dono da fazenda. Estas dificuldades, garante Ueta, fizeram parte da vida de centenas de imigrantes que haviam se instalado em Maringá. Mas eles não desistiam.
Superada a fase da falta de experiência, os japoneses insistiram na atividade e passaram a trabalhar como meeiros nas lavouras. Eles trabalhavam nas propriedades dos brasileiros pelo sistema de porcentagem. Geralmente acertavam o trabalho por seis anos. Nos três primeiros anos, quando as lavouras ainda não estavam prontas para a colheita, a porcentagem era maior. A partir do quarto ano, era menor. Mesmo assim, conta Ueta, os imigrantes conseguiam juntar dinheiro e depois comprar pequenas propriedades rurais.
A comunidade japonesa em Maringá cresceu significativamente na década de 50, quando a cidade se apresentava em franco desenvolvimento. Algumas famílias ainda tinham dificuldades de comunicação e acabavam encontrando nos imigrantes mais antigos o apoio para se acostumar a morar na cidade. Quando os japoneses começaram a chegar no Brasil havia esta necessidade de se agrupar, porque eles não entendiam a língua brasileira, e os brasileiros não entendiam o japonês, explica Ueta, um dos fotógrafos autorizados a cobrir a visita do imperador Akihito ao Brasil, no ano passado.
A maioria das famílias japonesas que se instalaram em Maringá veio do interior de São Paulo. Na época, no final de década de 40 e anos 50, os cafezais nas cidades paulistas já estavam saturados e os imigrantes haviam trabalhado em lavouras de algodão. A família Ueta também seguiu o caminho dos demais imigrantes. Os pais de Kenji chegaram no Brasil - Kenji era bebê de colo - no início da década de 30 e foram morar em São Paulo. Depois moraram em diversas cidades do interior paulista e voltaram para a capital. O pai dele, um administrador de empresas formado, morreu depois de morar três anos no Brasil. Ele não se adaptou ao trabalho forçado nas lavouras de algodão e também não conseguiu juntar dinheiro para voltar para o Japão.
Hoje, após 65 anos após vir para o Brasil, Kenji Ueta afirma que apesar de todo sofrimento dos pais, não pensa em voltar para o Japão. Meus pais sofreram muito no Brasil e morreram aqui, mas eles salvaram a minha vida e a de meus irmãos, porque se tivéssemos voltado para o Japão, estaríamos mortos durante a Segunda Guerra Mundial, diz. Para Ueta, o Brasil é o melhor lugar do mundo para viver. Entre as cidades, Ueta escolhe Maringá e justifica: As ruas são largas, a cidade é bonita e oferece uma ótima qualidade de vida.


