A cada 28 horas, uma pessoa morre vítima de acidente de moto no trânsito do Paraná. Entre os feridos, o relógio corre ainda mais depressa, com uma vítima a cada 26 minutos nas estradas e vias urbanas do Estado. Com o aumento no número de motos em circulação - só de janeiro a abril deste ano são mais de 30 mil novos veículos no Paraná - cresce também o índice de acidentes, e o reflexo está na situação caótica enfrentada pelo serviço de atendimento de emergência dos hospitais públicos.
  ‘‘Os acidentes de moto têm se tornado uma verdadeira epidemia. À família, causa a perda de entes queridos, gastos com medicamentos, cirurgias, transporte e hospitalização. À sociedade e ao governo, a perda de indivíduos produtivos por tempo prolongado, custos altíssimos com longas internações, cirurgias repetidas e complexas, e leitos hospitalares abarrotados’’, analisa o ortopedista Carlos Eduardo Sanches Vaz, responsável pelo setor de traumatologia do Hospital Universitário de Londrina.
  Estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que o custo anual com acidentes de trânsito no Brasil está na casa dos R$ 28 bilhões, com previsão de um aumento de 65% nos gastos nos próximos 20 anos. E grande parte desta despesa vai para os motociclistas, que representam cerca de 90%
dos feridos em acidentes
de trânsito.
  Segundo Carlos Vaz, a principal explicação está na vulnerabilidade do condutor da moto. ‘‘Nos casos de colisão, o motociclista absorve com seu corpo praticamente toda a energia gerada no impacto, seja contra a rua, contra objetos ou outro veículo. Por isso são freqüentes as lesões múltiplas, principalmente fraturas que atingem mais os membros inferiores, seguidos da cabeça e dos membros superiores’’, afirma o ortopedista, lembrando que a maior parte das vítimas são homens na faixa de 20 a 30 anos.
  Vaz admite que, apesar dos esforços das autoridades e das campanhas de esclarecimento e popularização do novo código de trânsito brasileiro, as ocorrências têm sido cada vez mais freqüentes e com maior gravidade. Entre os fatores relacionados por ele, o principal responsável é o desrespeito às normas de trânsito, principalmente no que se refere ao limite de velocidade. ‘‘Os motociclistas estão trafegando em alta velocidade na tentativa de ganhar tempo, como é o caso dos entregadores que se arriscam para ganhar mais comissões ou cumprir suas metas’’, observa.
  Na opinião do médico plantonista do Siate de Cascavel, Vilson Dalmina, é preciso atacar a causa dos acidentes, por meio de medidas como instalação de redutores de velocidade e vias públicas exclusivas para motos, além de mais investimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) na área de traumatologia. ‘‘São poucos recursos. O Ministério da Saúde faz muita propaganda com outras patologias como dengue, câncer e Aids, e os problemas de trauma são relegados a um segundo plano. Não se faz saúde preventiva com trauma, e acho que deveríamos levar mais a sério a violência no trânsito’’, critica o platonista.
  Exemplificando o atraso do sistema público de saúde com relação ao tratamento de traumas, Dalmina cita a indústria de implantes ortopédicos, como placas, parafusos e hastes, que evoluiu muito nos últimos anos mas foi deixada de lado pela saúde pública. ‘‘O SUS não custeia implantes de qualidade, geralmente importados. Utiliza apenas implantes nacionais, que já estão ultrapassados, fazendo com que a reabilitação seja mais demorada’’.
  Para piorar ainda mais a situação, o plantonista afirma que a tabela de honorários médicos para procedimentos ortopédicos é muito baixa. ‘‘Você recebe em torno de
R$ 150 para tratar cirurgicamente uma fratura de fêmur, que demora em média oito meses para receber alta médica’’, reclama Dalmina.

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