EPIDEMIA DAS MOTOS - Duas rodas e um problema de saúde pública
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sábado, 21 de junho de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
A cada 28 horas, uma pessoa morre vítima de acidente de moto no trânsito do Paraná. Entre os feridos, o relógio corre ainda mais depressa, com uma vítima a cada 26 minutos nas estradas e vias urbanas do Estado. Com o aumento no número de motos em circulação - só de janeiro a abril deste ano são mais de 30 mil novos veículos no Paraná - cresce também o índice de acidentes, e o reflexo está na situação caótica enfrentada pelo serviço de atendimento de emergência dos hospitais públicos.
Os acidentes de moto têm se tornado uma verdadeira epidemia. À família, causa a perda de entes queridos, gastos com medicamentos, cirurgias, transporte e hospitalização. À sociedade e ao governo, a perda de indivíduos produtivos por tempo prolongado, custos altíssimos com longas internações, cirurgias repetidas e complexas, e leitos hospitalares abarrotados, analisa o ortopedista Carlos Eduardo Sanches Vaz, responsável pelo setor de traumatologia do Hospital Universitário de Londrina.
Estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que o custo anual com acidentes de trânsito no Brasil está na casa dos R$ 28 bilhões, com previsão de um aumento de 65% nos gastos nos próximos 20 anos. E grande parte desta despesa vai para os motociclistas, que representam cerca de 90%
dos feridos em acidentes
de trânsito.
Segundo Carlos Vaz, a principal explicação está na vulnerabilidade do condutor da moto. Nos casos de colisão, o motociclista absorve com seu corpo praticamente toda a energia gerada no impacto, seja contra a rua, contra objetos ou outro veículo. Por isso são freqüentes as lesões múltiplas, principalmente fraturas que atingem mais os membros inferiores, seguidos da cabeça e dos membros superiores, afirma o ortopedista, lembrando que a maior parte das vítimas são homens na faixa de 20 a 30 anos.
Vaz admite que, apesar dos esforços das autoridades e das campanhas de esclarecimento e popularização do novo código de trânsito brasileiro, as ocorrências têm sido cada vez mais freqüentes e com maior gravidade. Entre os fatores relacionados por ele, o principal responsável é o desrespeito às normas de trânsito, principalmente no que se refere ao limite de velocidade. Os motociclistas estão trafegando em alta velocidade na tentativa de ganhar tempo, como é o caso dos entregadores que se arriscam para ganhar mais comissões ou cumprir suas metas, observa.
Na opinião do médico plantonista do Siate de Cascavel, Vilson Dalmina, é preciso atacar a causa dos acidentes, por meio de medidas como instalação de redutores de velocidade e vias públicas exclusivas para motos, além de mais investimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) na área de traumatologia. São poucos recursos. O Ministério da Saúde faz muita propaganda com outras patologias como dengue, câncer e Aids, e os problemas de trauma são relegados a um segundo plano. Não se faz saúde preventiva com trauma, e acho que deveríamos levar mais a sério a violência no trânsito, critica o platonista.
Exemplificando o atraso do sistema público de saúde com relação ao tratamento de traumas, Dalmina cita a indústria de implantes ortopédicos, como placas, parafusos e hastes, que evoluiu muito nos últimos anos mas foi deixada de lado pela saúde pública. O SUS não custeia implantes de qualidade, geralmente importados. Utiliza apenas implantes nacionais, que já estão ultrapassados, fazendo com que a reabilitação seja mais demorada.
Para piorar ainda mais a situação, o plantonista afirma que a tabela de honorários médicos para procedimentos ortopédicos é muito baixa. Você recebe em torno de
R$ 150 para tratar cirurgicamente uma fratura de fêmur, que demora em média oito meses para receber alta médica, reclama Dalmina.


