Formado no curso superior de Artes Cênicas em 1990, com mestrado em Teatro na Inglaterra, o curitibano Paulo Biscaia Filho, 37 anos, está à frente da companhia Vigor Mortis desde 1997. Participa do Fringe (Mostra Paralela, do Festival de Teatro de Curitiba) desde a primeira edição e este ano volta à programação com dois espetáculos: ''Graphic'', indicado ao Troféu Gralha Azul 2007, e a estréia ''Garotas Vampiras Nunca Bebem Vinho''. Para Biscaia Filho, que também já integrou a Mostra Oficial, o Festival de Teatro de Curitiba ainda é uma vitrine mas precisa corrigir problemas para não perder sua representatividade.

Folha - O que mudou no Fringe além da quantidade das peças?
Biscaia - O Fringe cresceu bastante. Houve um período em que o Fringe estava num tamanho ótimo. Já foi assustador quando teve 100 espetáculos, hoje com 200 espetáculos ele está quase impraticável. Há uma dificuldade muito grande de administração das próprias peças, que acaba forçando a diminuição da qualidade porque tem três, quatro, espetáculos no mesmo teatro, no mesmo dia. No primeiro Fringe era muito mais tranquilo, a gente podia ficar direto com a montagem no teatro. Ao contrário de hoje: a gente não trabalha, faz gincana. Termina o espetáculo a gente já tem que esconder o cenário pra poder ceder para a próxima peça, mudar a iluminação. E é óbvio que pra que isso aconteça com uma certa viabilidade a gente tem que simplificar algumas coisas. E ao simplificar, alguns aspectos do espetáculo ficam mais pobres e isso não é legal.

Folha - Por que você diz que não participa mais da Mostra Oficial?
Biscaia - Eu participei em 99, não fiz uma boa montagem, não houve uma resposta legal de público e de crítica, o que me traumatizou um pouco para estar na Mostra Oficial. Hoje em dia, pra ser bem sincero, nem me interessa estar na Mostra Oficial porque eu não percebo uma curadoria clara, não há uma linha estética de curadoria, o que deixa as discussões sobre os espetáculos um pouco mais confusas. E também porque eu acho que o Fringe acaba suprindo nossas necessidades.

Folha - Há 107 peças de Curitiba no Festival, uma produção que não se vê ao longo do ano. Como você avalia esse fenômeno?
Biscaia - Essa é uma das coisas negativas no Fringe que é um pouco difícil de escapar, porque o Fringe tem a premissa de ser democrático. É legal essa democracia, mas o resultado disso é que fica difícil para o público fazer a distinção do que é bacana e do que é picaretagem, porque tem muita picaretagem. Como você disse, não existe essa quantidade de espetáculos ao longo do ano. Muita gente aproveita o Festival porque tem um interesse maior do público em ir ao teatro e não há dúvida que a venda de ingressos é diferente. Embora o Festival dê essa oportunidade ao público de distinguir o que é bom e o que é ruim, o Festival só tem dez dias e não um mês. Em dez dias é muito difícil que haja um boca a boca adequado pra dizer ''essa sim'' e ''essa não''.

Folha - Como você avalia a produção de teatro hoje em Curitiba?
Biscaia - Ela cresceu bastante e cresceu bastante em público também, esse é um dos méritos do Festival. O Festival formou bastante público de teatro e profissionalizou também as companhias. O mais importante de tudo no teatro em Curitiba é que existe uma maturidade de criação teatral, de pesquisa em teatro como nunca houve antes. E a gente tem uma quantidade enorme de grupos que tem uma estética muito elaborada. A Vigor Mortis é apenas uma de um conjunto de diversas companhias, a Pausa, a Cia. Senhas, a Companhia Silenciosa, o Ator Cômico, que estão fortalecendo uma pesquisa de linguagem. Isso é muito legal porque vai criando uma identidade para as companhias e, por consequência, para o teatro em Curitiba.

Folha - O teatro de Curitiba já tem uma identidade hoje?
Biscaia - Eu acho que ela está se formando, já está quase pronta.

Folha - O que falta?
Biscaia - Uns cinco, 10 anos mais ou menos.

Folha - Como vocês estão comemorando os 10 anos de companhia?
Biscaia - Trabalhando feito um cavalo. Terminando o Festival a gente está embarcando o cenário pro Rio de Janeiro, onde o ''Graphic'' vai fazer uma temporada de sete semanas no Centro Cultural Banco do Brasil. A gente ganhou uma pauta patrocinada lá, a primeira da gente fora de Curitiba, tão grande assim, que foi algo sensacional. A gente tem outras montagens em vista ainda este ano.

Folha - Quais peças do Fringe você recomenda para quem está sem saber o que escolher?
Biscaia - ''Aperitivos'' e ''Menos Emergências'', da Pausa, ''Antígona'', da Cia. Senhas, as peças do Antropofócus, que além de estar na Mostra Oficial está com uma retrospectiva de repertório, ''Mecânica'', da Companhia Silenciosa, e eu sei que vou fazer alguma injustiça mas vou parar por aqui. A reunião desses trabalhos faz a cara do novo teatro de Curitiba, da pesquisa teatral, de um comprometimento estético grande. É isso que esses espetáculos apresentam no conjunto. Outra coisa que eu também poderia indicar são as peças do grupo Fúria, de Cuiabá.

Folha - Para uma companhia como a de vocês, que está completando 10 anos, o Festival de Teatro de Curitiba ainda é uma vitrine?
Biscaia - Com certeza o Festival de Curitiba ainda é uma vitrine. E quando eu faço essas críticas, eu não faço simplesmente por repúdio ao Festival mas, principalmente, por medo de que se esses problemas não forem resolvidos o Festival de Curitiba deixe de ser representativo, e isso sim seria muito triste. E muita gente vem comentando isso. E se a gente faz essas críticas não é simplesmente de ódio, mas de medo de que ele deixe de ser muito importante, ele tem que ser muito presente.

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