ENTREVISTA: 'Fanáticos são capazes de matar', diz padre Marcelo
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domingo, 19 de novembro de 2006
Júlio Maria<br> Agência Estado 
São Paulo - No Santuário do Terço Bizantino, no bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo, há fiéis que esperam até quatro horas pela missa de padre Marcelo. Enquanto chegam, o sacerdote, em uma sala reservada, reflete com o repórter sobre sua carreira, seu sacerdócio e o perigo de formar fanáticos religiosos.
Padre Marcelo- Acabou de chegar a notícia de que o disco novo vendeu, até hoje, 450 mil cópias!
Agência Estado - Por que as pessoas compram tanto o disco do senhor?
Padre Marcelo- Creio que ficaram com saudades por causa do meu afastamento da mídia. Gravar todo ano um CD não é um bom negócio, descobri isso. Você nunca vai conseguir ter um disco só de músicas espetaculares.
AE- Como escolhe as músicas que considera espetaculares?
Padre Marcelo- Meu processo tem quatro fases. Primeiro, a música tem que me conquistar. Eu recebo muitos CDs que me mandam e ouço esses CDs no carro. Se a música não me conquista nos dois primeiros minutos, já mudo de faixa, não tenho paciência. Se a música me conquista, ela é interessante. Segundo, eu venho aqui na missa de quinta-feira e testo a canção com os fiéis. Se pegar e o povo gostar e começar a cantar com a banda, a música é boa. São 70 mil pessoas por semana, imagina que laboratório. O terceiro passo é testar a música na missa das 9h da manhã, onde 70% dos fiéis são romeiros. Se eu conseguir que os romeiros cantem uma música que ouvem pela primeira vez, a música é muito boa. E para chegar à ser espetacular, levo a mesma música à missa dos jovens, às 17h. Se todos cantarem, é espetacular.
AE- Sua retirada da grande mídia foi uma estratégia calculada?
Padre Marcelo- Eu precisava disso por vários motivos. Bem, primeiro porque precisava me cuidar, estava magro, cifótico. Eu vim ontem de Brasília e, lá, percebi outra coisa interessante que mudou. A mídia sempre foi muito cética com minha pessoa. Quem é o padre Marcelo? Qual é a dele? Para aonde vai o dinheiro? O que ele quer? Fama? O lugar onde mais fui atacado foi em Brasília, e agora fui bem tratado pela mídia. Nem me perguntaram para aonde vai o dinheiro, que era a primeira pergunta que faziam.
AE- O senhor declama muitas músicas em vez de cantar. Isso não pode irritar o ouvinte que espera que o senhor cante?
Padre Marcelo- Esse disco foi planejado para tocar no coração das pessoas. Se eu só cantar, não vou tocar no coração de ninguém. Quando fui ao programa da Hebe, ela chorou quando cantei ''Noites Traiçoeiras'', valeu mais do que mil palavras. Antes de gravar no estúdio eu sentava, apagava a luz, fechava os olhos e rezava. Fiz isso para gravar cada música. Se não estava afinado, fazia de novo. Sei que minha voz não é de cantor, mas essas orelhas não deixam passar nada desafinado.
AE- Os evangélicos se profissionalizaram. Lançam ótimos CDs, contam com instrumentistas de primeira. Os católicos não ficaram para trás?
Padre Marcelo- Concordo com você, nós estávamos adormecidos. Mas estamos acordando. Já há bandas maravilhosas no meio católico, cantores profissionais, isso está mudando. E a música se canta com a alma. Eu, com esse CD, quero atingir a alma.
AE- De um lado há uma gravadora que precisa de lucro e de outro um padre que quer evangelizar. Como se faz as duas coisas ao mesmo tempo?
Padre Marcelo- Eu visto a camisa, vou às entrevistas, falo com as pessoas. Não ligo para vender, mas posso estar morto de cansaço que vou a cada compromisso, é a forma de fazer isso.
AE- O senhor diz que não liga para as vendas, mas comemora.
Padre Marcelo- Não, estou feliz, é o êxito. Meu irmão, eu tenho um respeito pela Marisa Monte enorme, que vendeu 270 mil discos. O meu já está com 450 mil. Comemoro, é o fruto do meu trabalho, é nesse sentido.
AE- As pessoas estão lá fora desde às 16h esperando pela missa que o senhor irá celebrar às 20h. Não é sacrifício demais?
Padre Marcelo- No sábado, elas chegam aqui às 20h para assistirem à missa das 18h do domingo. Mas há um segredo que é a acolhida. Acolho muito bem essas pessoas e vejo uma busca espiritual muito forte. Eu tenho muito medo é do fanatismo, fanático mata. Não estou fanatizando ninguém. Quando percebo alguém da minha equipe exagerando, vindo demais na Igreja e deixando a casa, falo ''ôpa, está errado''.
AE- E existem católicos fanáticos.
Padre Marcelo- Eles estão em todos os lugares. O líder religioso pode fanatizar uma pessoa, é uma grande responsabilidade. O que mais peço a Deus na minha vida é para que eu não fanatize ninguém. E você pode fazer isso sem querer. Amo os evangélicos, mas alguns são fanáticos. Está na palavra de Deus: ''Abençoai os seus inimigos''. Há fanáticos evangélicos a quem eu dou ''bom dia'' que viram a cara para mim e vão embora. É um absurdo, um extremismo. Essas pessoas são capazes de matar. Primeiro porque estão contra a palavra de Deus. É perigoso. Se eu falar que essa água aqui é azul, o fanático vai dizer que é azul. Eu tomo o maior cuidado.
AE- A pessoa que chega ao seu Santuário às 18h de sábado para esperar a missa das 20h de domingo não é um fanático?
Padre Marcelo- É a acolhida. Eu não posso abraçar a todos, mas eu recebo a todos muito bem. Olha o poder dessa acolhida. Está aqui esse copo com água e alguém vai comprá-lo. O que é mais importante? A qualidade da água ou o preço da água?
AE- A qualidade.
Padre Marcelo- Isso seria o normal, mas não é o que acontece. É a acolhida. Se eu falar com simpatia ''e aí meu irmão, olha que água fantástica'' vou vender a você. A proporção hoje na venda, isso dizem empresários, é 80% da acolhida, 13% o preço e 7% da qualidade. Agora, pense isso na fé.
AE- O senhor ficou recentemente muito magoado com a forma com que os jornais noticiaram que cobraria R$ 2 para a missa de Finados.
Padre Marcelo- Eu tirei da minha vida a palavra ''por quê''. Não é fácil, me entristeço, mas tirei. Não pergunto mais isso a Deus. Sei que lá na frente vou saber o ''para quê''. Quando vi isso no jornal... Eu jamais venderia missa, quem me conhece sabe. Na hora fiquei chateado, muito chateado, e cancelamos a missa em Interlagos.
AE- O senhor ficou magoado...
Padre Marcelo- A história é a seguinte: Não vou falar o nome da pessoa, mas eu tenho um amigo jornalista. Esse meu amigo disse que faria uma matéria para arrumar isso (a polêmica), mas fez outra matéria mal-intencionada. Aquilo me revoltou, me senti um mercenário. Depois rezei para Jesus. Ele foi caluniado, difamado, morreu na cruz. Se sou servo Dele, não posso não querer ser maltratado. Essa pessoa me falou uma coisa na frente e me deu uma facada nas costas. Vou falar uma coisa em off, em off não, pode publicar. Sou padre secular, ou seja, tudo o que eu receber é meu. Poderia ficar para mim. Conversa com o pessoal das gravadoras por onde passei, pergunta o quanto entrou de dinheiro para o meu CD, o que eu ganhei de dinheiro. Não tenho nada.
AE- O que fez o senhor querer cobrar na missa de Finados?
Padre Marcelo- As pessoas sempre me cobram aqui na paróquia, dizem que eu só me preocupo com o espiritual e não faço nada pelo social. Fiz e faço várias obras, mas não saio dizendo. Eu consultei todo mundo. A questão era que lá em Interlagos (zona sul da capital paulista) não poderíamos colocar uma multidão. O Contru só libera para 400 mil. Então colocamos um preço simbólico para restringir um pouco o número de pessoas. Pensamos em pedir alimentos não perecíveis, mas como iria levar isso depois de lá, iria gastar mais em transporte do que em arrecadação. Fui querer ajudar e... Mas a gente aprende.
AE- O senhor perdoou o jornalista?
Padre Marcelo- Sim, mas perdoar é uma coisa, compactuar com o erro é outra. Desejo o melhor para essa pessoa, mas ela não é mais minha amiga. Ela perdeu minha confiança.
AE- E isso é perdoar, padre?
Padre Marcelo - Perdoar é desejar o melhor para a pessoa, não é ser bobo. Vou tratá-lo com o maior carinho, mas... Se tem um ladrão aqui na igreja, não posso perdoá-lo pelo roubo e deixá-lo aqui. A pessoa tem que ter um tempo para sentir o que fez.


