Entrevista: Comodismo é o maior inimigo da criança
Entrevista:
Mário CesarDe frenteUdo Bock: organismo da ONU já está enfrentando problemas que antes eram varridos para baixo do tapeteO coordenador de projetos do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância, da ONU) das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste no Brasil, Udo Bock, atua há 16 anos na promoção da causa da infância e da adolescência no País. Publicitário, ele começou a carreira na década de 60 em São Paulo e, em 1982, fazia sua primeira campanha das chamadas contas filantrópicas - sem cobrar nada. Foi uma campanha nacional para promover o aleitamento materno, iniciativa do Unicef e da Pastoral da Criança, que estava iniciando suas atividades no País. Depois veio o movimento Criança e Adolescente, cujo produto foi a conceituação da criança como prioridade nacional através da inclusão de artigo específico na Constituição - o artigo 227. A regulamentação desse artigo gerou o Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990 e mais uma campanha para Bock.
Nesse período, o publicitário transferiu-se de São Paulo para Salvador (BA), onde conta ter saído da mesa para ir a campo. Comecei efetivamente conhecer a vida no Nordeste. Não só na Bahia, mas eu viajava pelo Nordeste e me sensibilizei como profissional para a questão da pobreza, da exclusão. Me tocou profundamente, relata.
Abria-se uma nova forma de atuação. Além da produção de campanhas, envolvimento com fóruns dos direitos da criança e do adolescente e uma participação efetiva nas reuniões da Pastoral. No início de 91 veio o convite para que ele assumisse, em Brasília, o setor de mobilização social do Unicef, com a missão de encontrar as melhores formas de comunicação com a sociedade e a imprensa. Era vice-presidente da Propeg, a maior agência de publicidade do Nordeste. Bom salário, campanhas legais para fazer, um grande desafio. Larguei tudo e fui para Brasília.
Nessa entrevista concedida à Folha em Florestópolis, nas comemorações dos 15 anos da Pastoral da Criança, Bock traça um diagnóstico da situação da infância no Brasil, fala dos resultados do trabalho voluntário, da falta de organização da sociedade civil e dá um puxão de orelhas nos meios de comunicação que, na visão dele, se deixam seduzir pelo catastrofismo. E garante: boa notícia também vende jornal. A seguir, os principais trechos da entrevista:Comodismo é o maiorinimigo da criança
Coordenador do Unicef aponta que é necessário a sociedade se indignar para mudar o processo de apoio à infância
Patrícia Zanin
Folha: Que análise o senhor faz da infância no Brasil?
Bock: Temos hoje no Brasil cerca de 25 milhões de crianças e de adolescentes de 0 a 17 anos, vivendo em famílias com renda per capita inferior a meio salário mínimo. Muito embora o Unicef aborde a questão da criança pela ótica da integridade, do ser uno, holístico, sujeito de direitos conforme a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente, os dados estatísticos trabalham com a criança setorizada em Saúde, Educação, Assistência Social. Assim, pelos dados da Saúde, por exemplo, temos ainda altos índices de mortalidade infantil - morrem 40 crianças em cada mil nascidas vivas e ainda são altos os níveis de mortalidade por doenças preveníveis por vacinas ou por cuidados simples e de baixo custo. Esses índices, porém, já foram piores e essa mudança do perfil de doenças e mortalidade colocam hoje como principal motivo a morte por causas perinatais - durante ou logo após o parto. Evitar essas mortes requer ações mais sofisticadas do que campanhas como a do soro caseiro ou as de multivacinação, até hoje desenvolvidas com o apoio do Unicef. Hoje, nosso perfil de apoio está mais orientado para a educação para a saúde através do pré-natal bem-feito, a educação da menina, o aleitamento materno exclusivo até quatro a seis meses, a identificação de Hospitais Amigos da Criança ou das Maternidades Seguras. O apoio aos programas de agentes comunitários de saúde, ações junto à família, enfim campanhas muito mais relacionadas à prevenção do que ao tratamento.
Na Educação ainda tínhamos, até pouco tempo atrás, dados com a evasão de cerca de 50% de crianças logo no 1º ano de ensino fundamental, altos índices de repetência de forma que os alunos matriculados no 1º ano, chegavam ao 8º com uma média de 12 anos. Um índice de desperdício de 50%.
E somente muito recentemente estamos abordando os temas que até agora a sociedade tem varrido para baixo do tapete: a criança vivendo com Aids, a criança vítima da violência doméstica, o trabalho infantil e a exploração do trabalho juvenil, a exploração sexual de meninas e meninos.
Tem havido uma considerável melhora desses índices, muito em razão de uma maior mobilização da sociedade, principalmente na exigibilidade de políticas públicas pela criança, adolescente, pela mãe, família.
Ainda há muito o que fazer, especialmente na redução dos índices de desigualdade na distribuição da renda nacional, principal obstáculo nessa corrida pela melhora dos índices sociais. Mas somos otimistas, a partir da constatação de que tem aumentado consideravelmente o nível de participação da sociedade, paralelamente ao processo de redemocratização que estamos vivendo no País.
Folha: Mas o Brasil é hoje um dos campeões mundiais na exploração do trabalho infantil. O governo tem desenvolvido ações concretas para tentar acabar com o problema ou é só marketing?
Bock: A questão do trabalho infantil é muito complexa. Seu combate começou por iniciativa do movimento sindical através de pesquisa apoiada pelo Unicef, em Franca (SP), junto ao setor calçadista. A discussão logo se ampliou para a cultura de cítricos, para o corte da cana, cultura do sisal, do mate, do tomate, das carvoarias, quebra de pedras e outras áreas. O governo foi ágil na adesão, através do Ministério do Trabalho, ao movimento liderado pelos sindicalistas e apoiado tanto pelo Unicef como pela OIT (Organização Internacional do Trabalho, também um órgão da ONU), e, principalmente, pela Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança que promoveu a entrada do setor empresarial nessa ação. E, por que a complexidade? Porque não basta simplesmente impedir que a criança trabalhe e deixe de gerar aquela parcela de renda para a família. Para substituir ou compensar esta situação, passaram a ser criados equipamentos de ações complementares à escola, para garantir o direito da criança se desenvolver, de brincar. Foram criados programas de complementação de renda das famílias dessas crianças. Governos estaduais e municipais e o próprio governo federal, através da Secretaria da Assistência Social do Ministério da Previdência, têm investido nesse complementação de renda familiar, na disponibilização de estruturas de ensino e atividades extraclasse.
Folha: Onde está o erro?
Bock: O erro está na falta de indignação de certos segmentos da sociedade diante de situação de uma criança, um ser em desenvolvimento, ser submetida ao trabalho pesado e precoce, e impedida de exercer seus direitos de frequentar a escola, aprender, brincar.
Folha: Como a sociedade pode contribuir com essa discussão?
Bock: Primeiro, indignando-se efetivamente com uma situação que está, até certo ponto, arraigada à nossa cultura, mas prejudica o futuro da criança. Assumir um processo de mudança. Influir na exigibilidade dos direitos da criança. Pressionar por políticas públicas pela erradicação do trabalho infantil como, por exemplo, a de governos que garantam, em seus processos de licitação pública, a não-concorrência de fornecedores que se utilizem do trabalho infantil. E valorizar empresas que impedem o trabalho infantil em toda a sua cadeia produtiva: automóvel, aço, carvão, por exemplo.
Folha: Como o Unicef vê a exploração do turismo sexual infantil no Brasil?
Bock: É uma dessas atividades que muitos fingem que não vêem. Envolve a exploração sexual, o trabalho infantil, a violência doméstica na medida em que se sabe que a maioria dos casos provêm da exploração da criança pelos próprios pais, padrastos, parentes próximos. É inadmissível. É um crime.
Folha: Existe algum projeto específico do Unicef para tentar evitar essa exploração?
Bock: O Unicef apóia, técnica e financeiramente, atividades que, através de fóruns específicos, mobilizem a sociedade, órgãos governamentais, instituições como as transportadoras, sindicatos de caminhoneiros, taxistas e rede hoteleira no combate a essa atividade.
Folha: E de outros órgãos governamentais e de ONGs brasileiras, há projetos? Quais o senhor destacaria?
Bock: O trabalho do Cendeca (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente), na Bahia, que atende a denúncias ou detecta infratores providenciando a detenção e processo-crime. Na área governamental apoiamos o programa da Embratur que atua na mobilização de organismos nacionais e internacionais na prevenção e combate ao turismo e exploração sexual da criança.
Folha: Para atender a infância, quais são os programas que o Unicef desenvolve? Ou só apóia?
Bock: O Unicef é um órgão de cooperação internacional da ONU fundado em 1946. Opera com base em um mandato firmado com o governo brasileiro através do Ministério das Relações Exteriores, Agência Brasileira de Cooperação, para colaborar com a sociedade em ações pela criança e adolescente. No Brasil, o Unicef se estabeleceu em 1950 e investe atualmente no País R$ 20 milhões, recursos financeiros gerados no exterior e aqui mesmo, através de campanhas de doações por mala direta, pelos meios de comunicação ou em conjunto com empresas e venda de produtos como, por exemplo, os já famosos cartões de Natal do Unicef. Apoiamos ações pela criança e adolescentes através de pesquisa, análise de situação, planejamento e implementação de programas, mobilização e comunicação social. Na prestação direta de serviços, apóia entidades cujos projetos atendam às diretrizes de planejamento técnico de programas.
Folha: O senhor não se assusta quando o governo promove cortes no Orçamento que vão prejudicar a área social como a saúde e na educação?
Bock: Assusto-me, mas aí é que vem o trabalho de mobilização da sociedade para não permitir que isso aconteça. É importante mobilizar no sentido de pressionar via Congresso e também diretamente no município, Estado e União para importância do papel dele, governo, na questão social.
Folha: Mas a gente não nota uma grande mobilização, uma repercussão nesse sentido. As pessoas não se dão conta da força que têm?
Bock: Não se dão porque muitas vezes não estão organizadas.
Folha: A que o senhor atribui essa falta de organização?
Bock: Isso é uma cultura brasileira, de colocar culpa do governo, mas também não se mexer. É uma cultura que vem de regimes ditatoriais, em que se esperava tudo do governo porque interessava a ele prometer essa suficiência. Gerações e gerações foram formadas nessa cultura e de repente isso mudou.
Folha: O voluntariado é um começo para essa mudança?
Bock: Sim, qualquer pessoa pode ser voluntário para ações sociais e, felizmente, um número cada vez maior de cidadãos está dando um pouco de seu tempo e sua dedicação a essas causas. E, como no caso da Pastoral da Criança, tornarem-se verdadeiras líderes comunitárias na prestação de serviços que salvam vidas, muitas vidas.
Folha: Ser voluntário pode ser um gesto descompromissado ou é preciso assiduidade, dedicação e atuação regular? Que outros requisitos o senhor destacaria?
Bock: Compromisso e assiduidade são fundamentais. Só mais um requisito: capacidade de transmitir amor.
Folha: Qual é a fórmula para ser um bom voluntário? Como escolher o projeto, a entidade ou a instituição para colaborar?
Bock: Todos nós temos uma vocação, alguma área do conhecimento que dominamos melhor. O ideal é buscar uma entidade que atenda a esta vocação e necessite desse conhecimento. Para facilitar essa associação já existem instituições que aproximam um voluntário de uma instituição através de um processo de administração do voluntariado. O programa Comunidade Solidária já motivou a instalação de organizações com essa vocação em sete estados brasileiros. Está em processo de expansão.





