Entre o agito, pesca e sossego absoluto
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Bia Moraes<br>Colunista da Folha 
Um lugar sossegado para pescar e perder a noção do tempo. Assim é a comunidade de Santa Luzia, uma espécie de cidadezinha, meio esquecida, meio escondida, em um canto do morro central que abriga praias de Porto Belo, em Santa Catarina. Vizinha de lugares badalados como Bombas, Bombinhas e Mariscal, Santa Luzia é de um anacronismo que impressiona na primeira visita. Pode ser vista como uma vila modorrenta e entediante - ou como um oásis de silêncio e rotina zen.
A reportagem da Folha visitou Santa Luzia em um dia de sol, em plena temporada. Eram duas da tarde, mas não se via ninguém nas ruas. De cara, a sensação imediata é voltar no tempo e estar em uma cidade fantasma. A primeira visão aparece ao cruzar o Rio Santa Luzia, que deságua na baía, e deparar com barquinhos de pesca. No lado oposto do rio, que corre em direção aos morros, um marasmo completo. Pasto, gado, céu azul e o verde da mata no horizonte.
Logo adiante, um cruzamento perpetua a sensação inicial. O poste, as placas com os nomes das ruas e a casa da esquina são da década de 60. Com o sol a pino, é hora de achar alguma bebida gelada, um picolé, e se possível, encontrar uma alma viva naquele trecho do mundo. A padaria, na esquina oposta, é a salvação.
Ali dentro, na sombra, um alívio - e a constatação tardia de que, as três da tarde, nenhum morador local se arrisca a sair no sol. É hora da preguiça, da sesta dentro de casa. A mocinha que aparece no balcão até se espanta com os forasteiros bronzeados em busca de água mineral e sorvete. Em um olhar mais atento, percebe-se que não há nada alcoólico para vender no local e que a moça tem pele clara e olhos azuis, com o cabelo louro bem apanhado na touquinha branca. O cheiro de pão e torta assando assalta o espírito. De novo - estamos voltando no tempo?
A lourinha não quer dizer o nome por timidez, nem se deixa fotografar. Elogiada pelos traços delicados e tez perfeita, confirma a ascendência alemã. Nasceu em Blumenau, no mesmo Estado, mas há tempos mudou-se para Santa Luzia com a família. Mora ali mesmo, numa casa boa, atrás da padaria. "Não troco esse sossego por nada", confessa.
Ela conta também que Santa Luzia sempre foi daquele jeito - "mocadinha" e tranquila. "O pessoal que tem casa aqui e veio de fora, na maioria, é aposentado. Vêm para pescar, descansar e cuidar do jardim. Aqui não tem banho de mar", explica. Outra característica, que diz sobre o lugarejo, é a ausência de identidade política. Santa Luzia pertence, nas palavras da mocinha, "metade a Tijucas, metade a Porto Belo".


