Entre altos e baixos
atualizado em 13-11-24
São 45 anos no mesmo endereço: o edifício Dante Alighieri, no Centro de Curitiba. Mais precisamente no elevador que viaja pelos 21 andares do prédio, levando clientes para escritórios, pacientes para consultórios, consumidores para lojas. Do alto ao térreo, o equipamento comandado por Benedicto Coelho percorre 30 metros a cada dois minutos, o que equivale a cerca de 5 mil metros ''rodados'' por dia. Todos esses anos de profissão já fizeram o ascensorista acumular uma ''milhagem'' de quase 50 mil quilômetros, mais que uma volta ao mundo. ''É muita coisa, heim!'', surpreende-se.
A história começou em 1962, quando o zelador do prédio estava procurando alguém para ocupar a função. ''Eu trabalhava na fábrica do elevador e a equipe do edifício dava preferência para quem já entendia um pouco da função'', relembra Coelho. De lá pra cá, foi preciso muita paciência com os visitantes. Muitos tornaram-se amigos dele. ''Você vai fazendo amizade com todo mundo, eles te chamam pelo nome. Vira parte da vida de cada um'', avalia.
Ele tem quase meio século de experiência na função. Já Adriana de Fátima Marques ocupa um dos elevadores do Edifício Asa há um mês e meio. ''Trabalhava como vendedora em uma loja de shopping e queria um emprego que fosse de segunda a sexta. Aí ví o anúncio no jornal, fui atrás e deu certo'', conta.
Mas o primeiro dia foi difícil. ''Não estava acostumada com aquele sobe e desce, fiquei um pouco enjoada'', recorda. Porém, a necessidade falou mais alto e o problema ficou ''no andar debaixo''. E se alguém achar a profissão entediante, ela contesta. ''É bem divertido, você vê e conhece muita gente, nem vê o tempo passar'', conta.
Quem também não viu o tempo passar foi Angélica Elenise de Souza - são 10 anos orientando e transportando os clientes do Shopping Crystal. Além de boa memória para decorar em qual piso está cada uma das lojas, a ascensorista destaca a necessidade de paciência como principal virtude para exercer a função. ''O contato é com vários tipos de pessoas, várias idades. Tem quem te cumprimenta, quem entra e sai sem falar nada. Há até quem conte a história da vida'', enumera Angélica, que nesse período já ficou algumas vezes presa no elevador com os clientes. ''Na hora não pode demonstrar nervosismo, precisa acalmar a pessoa. Alguns ficam mais exaltados, outros encaram com naturalidade. Já teve até casal tirando foto dos filhos presos no elevador'', diverte-se Angélica.
Histórias passadas no pequeno espaço de trabalho também são relembradas por R.C.P., que está há sete anos no shopping. Em uma das situações, um senhor, que estava acompanhado de uma mulher, enganou-se e pegou na mão de um homem quando o elevador parou em uma das garagens. ''Ele puxou, a pessoa não foi e aí que ele percebeu o que tinha acontecido. Com todo mundo rindo ele ficou lá naquele piso, morrendo de vergonha, mesmo não sendo o que ele queria'', relembra.
Mas antes de viver essas situações engraçadas, a estudante de Recursos Humanos, que veio de São Paulo para estudar em Curitiba, precisou driblar - acredite - o medo de elevador. ''Eu precisava do emprego e por isso encarei. Mas aí percebi que era medo daqueles antigos, que tremiam bastante, não esses novos'', argumenta.
Em meio ao entra e sai, os clientes do shopping aprovam a presença das ascensoristas. ''Eu mesmo não sabia onde ficava o restaurante e pergutei para ela, é um apoio bastante importante'', analisa a administradora de empresas Karina Dacher.
O técnico de informática Romildo Manika concorda. ''O local é grande e quando estou com pressa não dá para ficar procurando a loja. Aí elas auxiliam muito'', avalia.
Segundo a gerente de marketing do Crystal, Lylian Vargas, a presença é fundamental. ''As ascensoristas são as primeiras relações públicas do shopping, que têm uma importante interação com os clientes. É um trabalho sempre baseado em treinamentos e cursos, cujo o retorno é sempre grande'', argumenta.





