Na Itália, a grife Brioni, famosa por vestir o agente 007 no cinema, acaba de lançar um terno pelo valor de US$ 43 mil (aproximadamente R$ 100 mil). É o terno mais caro já fabricado no mundo. Em Curitiba, roupas como essa não chegam perto desse valor. O preço dos trajes feitos por alfaiates varia entre R$ 180,00 e R$ 1.500,00. Famosos por conhecerem o corpo dos clientes, esses profissionais existem há muito tempo e há quem se recuse a comprar um paletó feito em confecção. O mundo dos mestres alfaiates da cidade foi retratado por Valéria Oliveira Santos (antropóloga), Dayana Zdebsky de Cordova (antropóloga e produtora), Fabiano Stoiev (historiador) e João Castelo Branco (antropólogo e fotógrafo) no livro "Alfaiatarias em Curitiba", lançado no último sábado no Solar do Rosário.
Depois de um ano e meio o trabalho ficou pronto. Tudo começou quando Valéria passou por uma alfaiataria no centro e se interessou por uma poltrona que estava lá dentro. Entrou para tentar comprar o móvel. Quando viu o espaço e o trabalho do profissional, teve vontade de descobrir um pouco mais sobre os mestres alfaiates. Ela chamou os outros três amigos que, após vencerem um edital da prefeitura, iniciaram as pesquisas. Os quatro conversaram com diversos profissionais e no convívio com eles viram os assuntos relevantes a serem abordados no livro.
Após a pesquisa de sete meses, uma exposição fotográfica foi feita, com imagens capturadas por João. Mais sete meses foram necessários para escrever os textos. No resultado constataram que existem mais alfaiates do que imaginavam. Apenas no famoso edifício Tijucas, na Avenida Luiz Xavier, são 15 alfaiatarias. No Centro são muitos, mas os bairros mais afastados, como o Boqueirão e o Butiatuvinha, também possuem profissionais do ramo. Segundo a Associação Beneficente dos Alfaiates e o sindicato da categoria, são 1.500 em todo o Paraná.

Perfil
A maior parte dos alfaiates ainda na ativa possui mais de 65 anos. Os com meia década de vida são considerados ainda jovens na profissão. O diferencial de procurar um serviço como esse é a valorização do cliente. "Eles gostam de falar que já atenderam pessoas importantes, políticos e diversos membros da mesma família", conta a autora Valéria. Na pesquisa, muitos alfaiates falaram que em algumas ocasiões viram quase psicólogos dos fregueses. Às vezes eles não sabem o que querem vestir e a escolha fica por conta do profissional. Para isso é necessário traduzir o corpo do cliente em forma de tecido.
"Os próprios alfaiates dizem que a profissão está acabando. Esse discurso é justificado pelo fato de que ninguém mais aprende a ser um mestre alfaiate", explica João, um dos autores do livro. No passado, com aproximadamente 13 anos o interessado já começava a estudar a arte de tirar medidas, cortar tecido e costurar o material. A costura era feita de maneira artesanal e o dedo médio era amarrado para dentro da mão. Era nele que ficava o pequeno dedal. A ponta deste dedo empurrava a agulha que furava o tecido. O dom muitas vezes era passado de pai para filho. Ou então famílias do interior colocavam o filho como estagiário para garantir um bom trabalho no futuro.
Na década de 50 o tecido era caro e o trabalho do alfaiate mais barato. Hoje o processo inverteu. Os tecidos podem ser encontrados por valores diversos, enquanto que o trabalho do profissional que fabrica o terno valorizou. Quanto mais caro o tecido, mais alto é o preço do feitio. O motivo é a responsabilidade de trabalhar com um material muitas vezes importado e de grande valor.
"A visão de muitos alfaiates é que a profissão nunca vai acabar pois o corpo das pessoas sempre será diferente. Para eles, é difícil um terno de confecção ter o caimento ideal para clientes com medidas diversas", conta João.
Os quatro autores do livro agora fazem a captação de recursos para a produção de um documentário média-metragem sobre a história de três alfaiates da cidade. O objetivo é aprofundar algumas histórias que não entraram na publicação.
O roteiro do filme é baseado na pesquisa feita para o livro, que começou com o interesse de Valéria em comprar um sofá. O móvel está até hoje em uma alfaiataria no Centro.
O livro "Alfaiatarias de Curitiba" tem distribuição dirigida. Interessados na publicação podem mandar um e-mail para alfaiatesealfaiatarias@ gmail.com.

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