Reflexos são como histórias recontadas muitas vezes. O essencial se mantém, mas os detalhes mudam, ao sabor das lembranças de quem conta e da imaginação de quem escuta. As histórias tornam-se outras, sem, no entanto, perder seus encantos, fonte primeira e cristalina de sua inspiração.
Reflexos são como uma nova linguagem, que emerge do caos de signos, aparentemente incomunicáveis. De repente, entrosados, mantém-se por instantes unidos, como se assim tivessem sido criados, revelando um fraseado irreconhecível, porém de fácil tradução.
Reflexos são como espelhos, que acolhem e devolvem imagens. Nem sempre a que esperávamos. Os olhos, contudo, pregam-nos peças e reenquadram, revisam o que parece estar fora de foco, propiciando-nos o retorno que queremos ver.
Reflexos são como dimensões ocultas repentinamente reveladas. O céu deveria estar em cima, os prédios não são tortos, a calça grosseira e o andar determinado não combinam com o porte da moça elegante, as luminárias não podem estar penduradas na janela...
Mas e se o mundo fosse mesmo assim ? Um caleidoscópio, um mosaico de peças que não se encaixam. Não de acordo com as nossas referências. Resistiríamos ao choque de uma realidade fora de si ? Ainda bem que a sensação dura só um instante e, a gente sabe, são só reflexos.
Contudo, é prazeroso receber em pleno rosto, na altura dos olhos, as lufadas luminosas de um vento imaginário, que põe tudo de pé, só que ao contrário ou, quem sabe, em diagonal. Que revoluciona forma e conteúdo à sua moda, como se dotado de vontade própria e de grande senso de humor. Mas, que pena, são apenas reflexos.
Também é divertido imaginar que nada é tão bem definido, certinho e correto, como se as imagens - as nossas incluídas - reproduzissem a orientação contida em um manual de etiqueta produzido no céu-paraíso. Mas mesmos distorcidos, nós ainda nos reconhecemos e sempre dá tempo de reconfigurar, basta estarmos atentos aos reflexos.
Nosso senso de realidade, no entanto, sofre. Afinal, nada é como parece ser. Ou mesmo que pareça, pode não ser. Seria o real o que estamos vendo, o que se deixa ver ou o que se permitiu refletir e que nunca saberemos de fato como é ? Cabe a pergunta e sobram respostas na forma de reflexos.

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