A estrutura de concreto da Rodoferroviária de Curitiba ferve, no calor de 34 graus de uma tarde de verão. Entre escadas, rampas, passarelas e plataformas de embarque e desembarque, 20 mil pessoas circulam diariamente, desde novembro de 1972, quando o prédio foi inaugurado. Mãos ocupadas por malas, costas que carregam mochilas, corações que se dividem entre a alegria de reencontrar alguém que não se vê há muito tempo e a tristeza da despedida de alguém querido, que está de partida.
Os ''encontros e despedidas'' já viraram música nas mãos de Milton Nascimento, em versos que ganham vida a cada metro da estação. Tem gente a sorrir, como Márcia Regina Abreu. O vidro de um dos portões de desembarque refletia a ansiedade da professora, que aguardava a chegada do casal de cunhados vindos de São Paulo. ''São pessoas queridas e não nos vemos desde o Natal. Então dá bastante saudade'', explica. Ali também está o pintor João Carlos da Rocha, acompanhado da saudade da irmã, prestes a chegar de Belo Horizonte para rever a família. ''Acho que nos vimos na Páscoa do ano retrasado. Vai fazer dois anos'', calcula. As horas parecem não passar. O relógio é consultado a cada minuto, a cada segundo, talvez. O atraso vira motivo de preocupação, até que a agonia da espera termina. ''Parece que quanto maior a saudade, mais tempo demora. Mas até que enfim ela chegou'', comemora.
Mas também tem gente a chorar. ''Despedida é sempre assim'', resume a dona de casa Andréia Corrachini, que preenchia as passagens da mãe, que veio de São Paulo junto com a avó, a irmã e a sobrinha. Na bagagem, além de saudade, dona Elmides Corrachini vai levar também algumas críticas em relação à rodoviária curitibana. ''Acho que falta segurança. No dia que chegamos, fomos abordadas por algumas pessoas pedindo esmola na entrada e, quando nos recusamos a dar, fomos xingadas. E às 17h30, em plena luz do dia'', denuncia. A filha também reclama. ''Um casal de amigos foi assaltado logo que desembarcou aqui, no final do ano. Levaram tudo, mala, celular, carteira. É uma situação constrangedora'', critica Andréia, que agora recomenda a todos que esperem no lado de dentro da rodoviária.
Seguindo a letra da música, é possível encontrar também ''quem veio só olhar''. Não só olhar, mas tentar conseguir uns trocados que se transformarão em almoço, lanche ou jantar. Cena triste, protagonizada por duas garotinhas. Irmãs, Renata, 8 anos, e Mariana, 4 anos (nomes fictícios), caminham por entre passageiros, pedindo alguma ajuda. ''Às vezes a gente fica no sinaleiro da avenida, mas hoje está muito quente. Aí viemos pra cá porque estamos com muita fome'', explicam, antes de seguirem rampa afora, apressadas em abordar quem passasse pelo caminho.
Todos os dias nesse vai-e-vem, o carregador de malas Antonio dos Santos já tem 31 anos de rodoviária. Um ''serviço gostoso'', como ele define. E que rende muitas histórias. ''Ah, tem gente que deixa a mala aqui e vai embora, outros estão em ônibus que faz parada, perdem o horário e ficam pra trás. Sem falar nos que são abordados pela polícia, trazendo alguma coisa suspeita na mala. Geralmente é gente que finge ser bem importante, mas não passa de ladrãozão'', brinca.
A vida que se repete na estação é cheia de surpresas para Georgina Pereira, funcionária de uma lanchonete. Já são quase oito anos no emprego, assistindo de tudo. ''De madrugada só tem louco'', diverte-se, narrando a presença de mendigos e drogados e defendendo os passageiros estrangeiros. ''São os mais educados. O problema é quando vão pedir alguma coisa para comer'', brinca Georgina, que vira e mexe atende alguém que não fala uma palavra em português. ''Aí tem que se virar com sinais. Eles começam a fazer gestos, desenhar. Já teve até gringo imitando galinha'', relembra, às gargalhadas, antes de resumir o sentimento de trabalhar ali. ''Todos os dias aparece alguém ou alguma situação diferente e isso que é o legal. Não trocaria esse emprego por outro'', constata.
E na hora de chegar e partir, Jair Arruda esta lá, ao lado do táxi, aguardando. Ele, que um dia veio de Santo Antônio da Platina, norte pioneiro do Paraná, para ficar, hoje transporta gente que está chegando ou traz para a rodoviária quem vai partir. Qual a situação que mais chamou a atenção dele? ''Certa vez uma senhora de idade entrou no táxi e, quando chegamos no destino, ela me falou que não tinha dinheiro para pagar. Pediu para passar outro dia. Você fica sem ação na hora. Tive que ir embora, sem receber. Fazer o quê, é a vida'', recorda, resignado. É, é a vida deste meu lugar. É a vida.

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