Encantados pelo Rei Momo
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terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Conhecidos na cena underground de Curitiba, os músicos e produtores culturais Rodrigo Barros e Luiz Ferreira assumiram mais um posto no meio musical, desde o ano passado. O primeiro é puxador de samba do Rancho das Flores, grupo da terceira idade que desfila no carnaval oficial da cidade, na Cândido de Abreu. O segundo é autor da marchinha que vai ditar o ritmo dos 600 foliões do grupo neste ano. Para muitos pode soar como uma surpresa. Mas numa breve conversa, se descobre os laços da dupla com a festa popular. Nunca deixaram de brincar carnaval desde a juventude e, hoje, reforçam o espírito de liberdade e criatividade para entrar nessa brincadeira. Ou nunca ficar fora dela.
Fomos convidados, no ano passado, pela Fundação Cultural de Curitiba para compor a marchinha para o Rancho das Flores. Topamos e fiz uma marchinha lenta, em 2007. Mas aí os participantes reclamaram, disseram que era muito devagar e queriam mais empolgação. Então neste ano, ela está mais acelerada, quase um frevo. Ficou um samba do criolo doido, conta Luiz Ferreira, 43 anos, autor da letra e da música, informando que o veterano maestro Cordeiro participa da canção tocando saxofone. E eu sou o Jamelão do Rancho das Flores, dispara o bem-humorado Rodrigo Barros, 44. Brincamos que somos a força jovem da terceira idade, acrescenta ele.
Hoje o carnaval se resume praticamente a duas quadras da Cândido de Abreu. Mas no passado era bem presente. Estamos trabalhando em cima do acervo de Aramis Millarch e ele registrou a vinda de Ismael Silva, em 1972, e de Cartola, em 1978, para serem jurados do desfile das escolas de samba. A gente ouviu o som de dez escolas entrando na avenida, era uma coisa bem feita, diferentes baterias, conta Barros. Por volta de 1940, havia tradição de blocos no bairro Portão. Eram marinheiros, melindrosas, presidiários, que se divertiam em salões ou mesmo na rua. Até 1970, me lembro que tinham muitos bailes, como o do Operário e outros populares que aconteciam na Marechal, a céu aberto. Curitiba tinha até decoração carnavalesca, resgata Ferreira.
Barros ainda lembra do Bloco do Bife Sujo, da Banda do Porco Chauvinista, a Banda Polaca. A última vez que saiu em blocos, em 1981, acabou na delegacia. Tinha bebido muita pinga e os policiais me levaram, na verdade, para que não fizesse mais nenhuma besteira, queriam me proteger, brinca o músico. Os dois produtores também têm o projeto de colocar na rua o Bloco do Velório, cujo hino carnavalesco já está pronto. Não sou exatamente um carnavalesco. Sou mais do festerê, da zona, da brincadeira, disse Rodrigo Barros. Eu já me considero um carnavalesco de verdade, rebate Luiz Ferreira, que confessa sentir falta de um carnaval mais espontâneo na cidade.
Há uma tendência do silêncio, de não se fazer festas em Curitiba. Aqui existe tradição de carnaval, escolas de samba e uma luta de resistência disso tudo. O que se investe é muito pouco. As escolas trabalham com pouquíssimo dinheiro. Falta infra-estrutura, opina Ferreira. A gente vai lá na avenida e acha divertidíssimo. Poucas pessoas vão assistir porque só fazem arquibancada para 7 mil. Se tivesse mais espaço, mais pessoas iriam conferir o desfile, não tenho dúvidas. Não acho certo essa comparação com o carnaval do Rio de Janeiro. Por que o nosso não pode desfilar, questiona ele. A cidade deveria brincar mais e fazer menos politicagem.
Quem faz carnaval é herói do samba
Para o fotógrafo, documentarista e professor da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Roberto Pitella, as pessoas que fazem o carnaval são heróis do samba. Ele vem registrando, há quase uma década, os desfiles. A gente aprende que o Paraná não tem tradição de cultura popular. E o carnaval é uma dessas manifestações que querem a todo custo abafar, esquecer. Muita gente diz que é ridículo o nosso carnaval. Mas o material que registrei diz o contrário, mostra uma festa de muita alegria, beleza, de muita diversão, conta ele, que pensa em reunir tudo em uma grande exposição, que se chamará Pede Samba.
Tenho fotos, inclusive, da época que acontecia na Marechal, quando havia mais liberdade e muitas pessoas brincavam. Veja que o nosso carnaval tem a característica de ser popular, de graça. Se você for com espírito aberto e generoso, se diverte muito, elogia Pitella. Se fala que as escolas de Curitiba são pobres. É verdade. As fantasias e os carros alegóricos são feitas com materiais menos nobres, como isopor, muita coisa é reciclada do ano anterior. Mas isso é ridículo sob os parâmetros da mídia, que procura o glamour das escolas milionárias do Rio na Cândido de Abreu, critica.
O carnaval de Curitiba tem suas características próprias, segundo Pitella, apesar de uma certa importação do samba carioca. Percebemos nos detalhes que tem muita coisa daqui. No samba-enredo que pronuncia leitE quentE, no gingado do samba das passistas, cita Pitella que começou a fotografar por conta porque gosta do carnaval. As arquibancadas ficam lotadas. Tanto que registrei famílias em pé assistindo a tudo, ou mesmo sentadas numa estação-tubo. O carnaval de Curitiba é um carnaval pequeno, feito pela periferia. São pessoas que passam o ano inteiro esperando esse único dia para desfilar no centro. Se acabar, o que vão dizer para elas, indaga.


