Ao contrário dos velhos discursos rançosos de raposas que ainda estão por aí acusando, sempre que podem, os conservacionistas paranaenses de serem os mais radicais de nossa sociedade, é fato que nada tem sido mais violento e extremado em nosso meio do que o uso criminoso dos recursos naturais, em todos os aspectos.
Acompanhando uma tendência planetária, mas com uma boa dose de regionalismo, a orgia foi muito além dos limites do racional. Não há como se evitar uma avaliação duramente negativa do desastre que fomos e ainda somos. Com um pouco de informação e bom senso pode-se chegar facilmente a conclusões muito óbvias: destruímos praticamente por completo nossas áreas naturais (restam 3% em 2000) e fazemos um uso abusivo e irresponsável de recursos fundamentais como a água, o solo e o ar.
Somos poluidores inconsequentes, usamos dos bens da natureza como se eles nunca pudessem nos faltar e, se pensarmos um pouco, perceberemos que a maioria deles já está faltando e muitos outros já nem mais existem. A maioria destas insanidades ocorreu nos últimos anos e décadas. Há pouquíssimo tempo, quando nossos avós ainda eram adolescentes. Três ou quatro gerações e chegamos à extremos simplesmente absurdos.
Se hoje parece razoável contabilizar-se os ganhos e perdas ambientais em razão de novos empreendimentos, é bom que se esclareça que isso nunca fez parte de nossos princípios. Em geral, foram aberrantemente ignoradas as mazelas oriundas de projetos, públicos e privados, em prol do desenvolvimento. O descontrole muitas vezes é a estratégia desejável e este é o crime mais baixo que o poder público vem cometendo, ano após ano, respaldado pelas velhas raposas já citadas. Descaminho ali, prejuízo aqui. É evidente que a conta recai sempre sobre as mesmas cabeças –as de todos nós– e sobre o meio ambiente.
Muitas são as perguntas que devem ser feitas nesta virada de século: que razões mais fortes impulsionaram as ações de destruição do meio ambiente no Estado do Paraná neste período? A ignorância e despreparo dos imigrantes que aqui aportaram? A baixa qualidade da educação? A pobreza? A falta de civismo? A inexistência de regras, princípios, leis? Governos fracos e comprometidos com interesses escusos? O oportunismo e a avareza de especuladores que não valem o ar que respiram?
Que boas desculpas poderemos dar a nossos filhos e netos para convencê-los de que o que aconteceu e vem acontecendo é NORMAL e faz parte do progresso, da natureza humana? Se formos minimamente honestos, não há nenhuma.
Está mais do que na hora de reconhecermos nossa incapacidade. Chega de pose e arrogância. Isso não serve para o futuro.
O futuro que poderemos ainda ter dependerá de nossa capacidade de lutar contra o desequilíbrio do clima no planeta, gerado também por nós aqui no Paraná. Também teremos que assumir de frente os problemas sociais e garantir a saúde de nosso território, recuperando áreas degradadas, preservando e restaurando a biodiversidade, protegendo verdadeiramente nossos mananciais, consumindo menos e seletivamente e buscando modelos de desenvolvimento limpo.
Precisamos abandonar, o mais rápido possível, aquilo que vem nos destruindo a cada dia: seguidas ações impróprias e lesivas ao meio ambiente e um comportamento típico nosso, que mistura fingimento com um ar hilário de superioridade. Onde estariam escondidos os verdadeiros paranaenses que ainda poderão mudar a direção de nosso futuro, hoje de prognóstico tão limitado?
Luz existe. O próprio mercado dá mostras de não admitir a existência de produtos sujos por muito mais tempo. A responsabilidade social das empresas e o crescimento do terceiro setor são algumas das razões para se manter algum otimismo.
No entanto, a melhor consciência e a posição mais exigente e cidadã da sociedade é o que pode realmente fazer a diferença. É bom não esquecermos uma coisa no próximo milênio: quem entrou em nossa casa tantas vezes, roubou e violentou quanto e como quis, agora tem a chance de demolí-la de uma vez se nós não acordarmos. Ou isso é pedir demais?
-Clóvis Ricardo Schrappe Borges, diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, em Curitiba

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