Em terra de cego, pouca esperança
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2000
Clóvis Borges 
Ao contrário dos velhos discursos rançosos de raposas que ainda estão por aí acusando, sempre que podem, os conservacionistas paranaenses de serem os mais radicais de nossa sociedade, é fato que nada tem sido mais violento e extremado em nosso meio do que o uso criminoso dos recursos naturais, em todos os aspectos.
Acompanhando uma tendência planetária, mas com uma boa dose de regionalismo, a orgia foi muito além dos limites do racional. Não há como se evitar uma avaliação duramente negativa do desastre que fomos e ainda somos. Com um pouco de informação e bom senso pode-se chegar facilmente a conclusões muito óbvias: destruímos praticamente por completo nossas áreas naturais (restam 3% em 2000) e fazemos um uso abusivo e irresponsável de recursos fundamentais como a água, o solo e o ar.
Somos poluidores inconsequentes, usamos dos bens da natureza como se eles nunca pudessem nos faltar e, se pensarmos um pouco, perceberemos que a maioria deles já está faltando e muitos outros já nem mais existem. A maioria destas insanidades ocorreu nos últimos anos e décadas. Há pouquíssimo tempo, quando nossos avós ainda eram adolescentes. Três ou quatro gerações e chegamos à extremos simplesmente absurdos.
Se hoje parece razoável contabilizar-se os ganhos e perdas ambientais em razão de novos empreendimentos, é bom que se esclareça que isso nunca fez parte de nossos princípios. Em geral, foram aberrantemente ignoradas as mazelas oriundas de projetos, públicos e privados, em prol do desenvolvimento. O descontrole muitas vezes é a estratégia desejável e este é o crime mais baixo que o poder público vem cometendo, ano após ano, respaldado pelas velhas raposas já citadas. Descaminho ali, prejuízo aqui. É evidente que a conta recai sempre sobre as mesmas cabeças as de todos nós e sobre o meio ambiente.
Muitas são as perguntas que devem ser feitas nesta virada de século: que razões mais fortes impulsionaram as ações de destruição do meio ambiente no Estado do Paraná neste período? A ignorância e despreparo dos imigrantes que aqui aportaram? A baixa qualidade da educação? A pobreza? A falta de civismo? A inexistência de regras, princípios, leis? Governos fracos e comprometidos com interesses escusos? O oportunismo e a avareza de especuladores que não valem o ar que respiram?
Que boas desculpas poderemos dar a nossos filhos e netos para convencê-los de que o que aconteceu e vem acontecendo é NORMAL e faz parte do progresso, da natureza humana? Se formos minimamente honestos, não há nenhuma.
Está mais do que na hora de reconhecermos nossa incapacidade. Chega de pose e arrogância. Isso não serve para o futuro.
O futuro que poderemos ainda ter dependerá de nossa capacidade de lutar contra o desequilíbrio do clima no planeta, gerado também por nós aqui no Paraná. Também teremos que assumir de frente os problemas sociais e garantir a saúde de nosso território, recuperando áreas degradadas, preservando e restaurando a biodiversidade, protegendo verdadeiramente nossos mananciais, consumindo menos e seletivamente e buscando modelos de desenvolvimento limpo.
Precisamos abandonar, o mais rápido possível, aquilo que vem nos destruindo a cada dia: seguidas ações impróprias e lesivas ao meio ambiente e um comportamento típico nosso, que mistura fingimento com um ar hilário de superioridade. Onde estariam escondidos os verdadeiros paranaenses que ainda poderão mudar a direção de nosso futuro, hoje de prognóstico tão limitado?
Luz existe. O próprio mercado dá mostras de não admitir a existência de produtos sujos por muito mais tempo. A responsabilidade social das empresas e o crescimento do terceiro setor são algumas das razões para se manter algum otimismo.
No entanto, a melhor consciência e a posição mais exigente e cidadã da sociedade é o que pode realmente fazer a diferença. É bom não esquecermos uma coisa no próximo milênio: quem entrou em nossa casa tantas vezes, roubou e violentou quanto e como quis, agora tem a chance de demolí-la de uma vez se nós não acordarmos. Ou isso é pedir demais?
-Clóvis Ricardo Schrappe Borges, diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, em Curitiba


